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A Tasca da Badalhoca é parte indissociável da história do Boavista, e a noite de 18 de maio de 2001 marcou o local. À frente da tasca está Maria de Lurdes, boavisteira de alma e coração.


Os festejos do Boavista, antes, durante e depois do jogo contra o Desportivo das Aves, a 18 de maio de 2001, extravasaram para lá do Estádio do Bessa, da Rotunda da Boavista e dos Aliados. Na Tasca da Badalhoca, o mítico estabelecimento da cidade do Porto que serve de monumento ao Boavista e ao universo axadrezado, houve festa rija. Orquestrada por Maria de Lurdes Guedes, mais conhecida como Dona Lurdes, a Tasca da Badalhoca é mais do que um dos pontos cruciais do roteiro gastronómico da cidade do Porto: é um autêntico santuário do Boavista, com cachecóis, recortes de jornais, fotografias, camisolas assinadas e, acima de tudo, um ambiente onde não resta sombra de dúvida que o emblema favorito é o axadrezado.

A 18 de maio de 2001, a Badalhoca viveu um dos seus momentos mais altos. Dona Lurdes, que tomou as rédeas da tasca em 1965, lembra-se da data como se tivesse sido ontem, e não esquece as centenas de sandes e litros de cerveja que serviu para encher o depósito dos adeptos que celebravam, pela primeira vez na sua história, um campeonato nacional. A festa entrou pela madrugada adentro e, nesse dia, ninguém precisou de pegar na carteira para pagar a conta. Nem os boavisteiros, nem os visitantes de outros clubes, que se deslocaram à Badalhoca para celebrar junto dos axadrezados o seu campeonato, num ambiente de euforia que deixou, para sempre, a marca na memória de Dona Lurdes. “Foi ganhar aquele ponto ao Porto, e depois segurar até ao fim”, começou por explicar a boavisteira, que não esconde que a forte rivalidade com os azuis-e-brancos deu um sabor especial à conquista do título naquele ano. E recorda a derrota por 4-0 na última jornada do campeonato com um sorriso despreocupado no rosto: “Se ganhássemos era melhor ainda, mas mesmo que perdêssemos já não fugia”.

 

A profecia (de) Maya

Dona Lurdes é a principal orquestradora de quem entra e quem sai da Tasca da Badalhoca. Nada lhe escapa, e todos os detalhes são carimbados pela matriarca. Mas os tempos mudaram. Recentemente, confessa-nos, fez até uma promessa a Nossa Senhora de Fátima a pedir a manutenção do Boavista na Primeira Liga. Caso se cumpra, promete, seguirá viagem até ao Santuário de Fátima. Para já, a vitória frente ao Portimonense, por 1-0, no sábado, é um bom começo para a luta dos axadrezados, que estão, até ao início da última jornada da temporada, ‘à tona’.

Mas não só de Fátima vive o Boavista. Se em 2021 Dona Lurdes se virou para a religião à procura do sucesso do clube, há 20 anos as garantias vinham de outra vertente do mundo espiritual. Naquela altura, a três jornadas do fim da temporada, a líder da Tasca “não acreditava ainda no título”. Eis que, no entanto, um sinal aterrou na sua casa. Maya, a famosa taróloga que ocupou durante anos o espaço televisivo com previsões, consultas e horóscopos, garantiu, a poucas jornadas do fim da temporada, que “um clube”, sem ser nenhum dos “três grandes”, conquistaria o título, apontando, sem mencionar o nome do Boavista, os axadrezados como principais candidatos ao título. Dito e feito. Poucas semanas depois, apesar da descrença inicial de dona Lurdes, a sina de Maya cumpria-se.

A incredulidade de Maria de Lurdes Guedes transformou-se em apreço pela taróloga e a boavisteira decidiu obsequiar a “profetiza” do triunfo axadrezado com um ramo de flores e uma oferta de um presunto no caso de Maya visitar a Tasca da Badalhoca.

Até ao momento Dona Lurdes não recebeu resposta da taróloga, e o presunto ficou por entregar. Mas garante que a oferta se mantém, caso Maya ainda esteja interessada em recolher a recompensa pela profecia certeira.

Para a boavisteira de coração, não há dúvidas sobre o que levou o Boavista à vitória naquele ano. “Há Bragas, há clubes aqui e ali, mas só o Boavista é que conseguiu o campeonato”, começa por referir, listando depois os ingredientes que deram o título aos axadrezados: “Tínhamos um bom treinador, estava bem dirigido [o clube], tínhamos dinheiro e não foi comprado o campeonato”. Pelo meio, ficam muitas críticas aos “favorecimentos”_dos três grandes.

 

Plano mestre

Os debates antes dos jogos, naqueles anos, revela a mentora da Tasca da Badalhoca, “não eram sobre se íamos ganhar ou não, mas sim sobre por quanto íamos ganhar”. Os ânimos estavam então em alta, numa época dourada para o clube, em que dona Lurdes não deixa de mencionar os nomes de Jaime Pacheco, técnico na altura, e Valentim Loureiro, que tinha presidido o clube anos antes, e que é um dos nomes incontornáveis do Boavista, tal como o seu filho, João Loureiro, presidente na altura da conquista do campeonato nacional. Por entre as mágoas de ver o Boavista em dificuldades, ainda se ouve o nome de Jaime Pacheco como candidato ao lugar de treinador. A proposta é de Dona Lurdes, que bem conhece o técnico que levou o Boavista à vitória, mas que não parece ter nos seus planos um regresso ao clube do Bessa, segundo nos conta a líder da tasca boavisteira.

Hoje, olha-se para trás com saudade, especialmente numa altura em que o clube se encontra na luta para se manter na primeira divisão, com 33 pontos, bem perto da zona de despromoção. Vinte anos depois da glória, vivem-se tempos difíceis, e dona Lurdes não esconde o descontentamento. “Aquela noite foi uma loucura”, descreve a taberneira, sobre o 18 de maio de 2001. “Mas, se a saúde me permitisse, e se ganhássemos o campeonato, voltava a fazer tudo aquilo assim”, confessa, sonhando acordada com o dia em que as portas da Tasca da Badalhoca se abram para celebrar novo título do clube.

Após mais de 50 anos de paixão pelos axadrezados, a chama mantém-se acesa, e cada jogo é ainda como se fosse o primeiro. Ao i, Dona Lurdes conta ainda como tem vivido os recentes desaires com os resultados do clube, apontando o dedo à arbitragem e à falta de “respeito” de alguns jogadores, por “uma camisola de um clube que já foi campeão”. “Ainda há tempos nem consegui dormir depois do jogo”, conta a matriarca da Tasca da Badalhoca, que acabou por adotar o nome, apesar de ter recebido a tasca previamente batizada. Refere-se à noite do jogo entre Boavista e Tondela, a 7 de maio, que acabou em empate, tirando à boavisteira a sua noite de sono. A sina repetiu-se na semana seguinte, com a derrota no estádio José Alvalade, que entregou o título ao Sporting CP. Os ‘leões’, aliás, estão bem marcados na memória de dona Lurdes. Afinal de contas, na temporada 2001-02, o título foi pintado de verde-e-branco, com o Boavista em segundo lugar, retirando-lhe aquele que poderia ter sido o bicampeonato dos axadrezados. Um resultado, no entanto, que a patroa da Tasca da Badalhoca acredita que foi injusto. “Mas já foi bom ganhar um”, conclui, recordando que, nos últimos 20 anos, Sporting Clube de Portugal e Boavista FC partilham o mesmo número de títulos de campeão nacional conquistados.

 

56 anos de amor ao Boavista

Se todos os visitantes da Tasca da Badalhoca fazem questão de cumprimentar Dona Lurdes ao entrar, de atirar um comentário ou outro a espicaçar as opiniões da taberneira, é porque a patroa conhece muito bem a sua clientela, e a sua clientela a conhece muito bem. Falando de jogadores como Petit ou Ricardo, ou mesmo do mister Jaime Pacheco ou de José Maria Pedroto, quem por aí passasse, sem saber do que se tratava, pensaria que a líder das tropas na Badalhoca estaria a falar dos seus filhos ou netos. Afinal de contas, a ligação ao clube era (e é) tal, que os elementos se tornam uma verdadeira família, reunida sempre naquele número 437, a pouco mais de um quilómetro de distância do Estádio do Bessa. Literalmente. Afinal de contas, uma das suas netas casou com Afonso Figueiredo, que levou o emblema do Boavista ao peito entre 2013 e 2016, e cuja camisola se pode ver numa das paredes da tasca.