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Ahmed Naser Al-Raisi foi eleito presidente da organização internacional de polícia criminal esta quinta-feira. Vindo dos Emirados Árabes Unidos, o novo responsável tem sido alvo de várias denúncias de envolvimento em casos de tortura e detenções arbitrárias.


Organizações de Direitos Humanos e vários políticos europeus denunciam a nomeação de Ahmed Naser Al-Risi, inspetor-geral do Ministério do Interior dos EAU, para o cargo de presidente da Interpol durante os próximos quatro anos.

Tratando-se de um posto sobretudo honorário, já que o presidente mantém as funções no país de origem e também porque o secretário-geral Jürgen Stock é quem exerce a gestão efetiva da organização, a nomeação é polémica pelas acusações de que Al-Raisi é alvo.

O inspetor-geral do Ministério do interior nos Emirados Árabes Unidos tem sido alvo de várias denúncias de tortura em França, sendo que a sede da organização internacional fica em Lyon.

Em novembro, três eurodeputados, incluindo a presidente da subcomissão dos Direitos Humanos, escreveram à presidente da Comissão Europeia sobre este tema: “Estamos profundamente convencidos de que a eleição do general Al-Raisi prejudicaria a missão e a reputação da Interpol e afetaria seriamente a capacidade da organização de cumprir sua missão com eficácia”, adiantava a missiva.

Ainda em 2020, quase duas dezenas de organizações não-governamentais incluindo a Human Rights Watch (HRW), assumiam preocupação com a possível escolha do general vindo dos Emirados, sendo “membro de um aparelho securitário que ataca sistematicamente a oposição pacífica”.

As várias denúncias de torturam visam o general, que se iniciou na polícia dos Emirados Árabes Unidos durante os anos 80.

De acordo com a Gulf Center for Human Rights (GCHR), Al-Raisi é acusado de “atos de tortura e barbárie” contra um membro da oposição, Ahmed Mansoor, detido em solitária desde 2017 numa cela de quatro metros quadrados “sem colchão nem proteção contra o frio” ou “acesso a cuidados de saúde, água e condições sanitárias”.

A organização submeteu uma queixa contra Al-Raisi em França, sendo que a organização a que o general agora preside fica sediada em Lyon.

Um sinal para os regimes autoritários?

Na última semana, dois homens submeteram processos criminais contra Al-Raisi na Turquia, com a atual assembleia geral da Interpol a decorrer a partir de Istambul. Matthew Hedges, um académico de 34 anos da Universidade de Exeter, diz que esteve detido em solitária durante sete meses em 2018 nos Emirados Árabes Unidos.

O investigador refere que estava no país para fazer investigação de Doutoramento e acabou por ser detido e ameaçado em instalações que são supervisionadas por Al-Raisi, aponta.

"A possibilidade de Al-Raisi se tornar presidente da Interpol cria um precedente extremamente perigoso, onde os abusos sistemáticos são legitimados e normalizados para que outros Estados continuem a usar estas práticas", acrescentou.

Também Ali Ahmad, de 29 anos, diz ter sido detido por usar uma camisola do Qatar durante um torneio de futebol, numa altura de grande tensão diplomática entre os dois países. Adianta que foi torturado, espancado e privado de comida, água e sono durante vários dias de detenção.

Em declarações à agência France Presse, Edward Lemon, professor na Texas A&M University e especialista em regimes autoritários, a eleição de Al-Raisi envia “um sinal para outros regimes autoritários”, que o uso da Interpol para perseguir opositores fora de fronteiras “não será um problema”.

A eleição do oficial dos EAU já era esperada tendo em conta o papel preponderante que o pequeno país da Península Arábica tem assumido na organização. Só em 2017, os Emirados Árabes Unidos doaram 50 milhões de euros à Interpol, valor que, para efeitos de comparação, praticamente equivale à soma das contribuições de todos os países membros em 2020.

Citado pela AFP, Edward Lemon, que acompanha o trabalho da organização, refere ainda que os EAU “doaram ou emprestaram 10 milhões de euros em 2019” à Interpol, ou seja, cerca de 7 por cento do orçamento.