Shifter 3 meses atrás Abrir

Este artigo foi publicado na 1ª edição da Revista do Shifter, dedicada às mudanças no mundo trazidas pela pandemia de Covid-19.




Se quiseres ouvir este artigo agora podes fazê-lo! Este é o primeiro artigo lido do Shifter de vários que vamos lançar daqui para a frente. No futuro podes consultá-los nas plataformas do costume.

Sara Dâmaso vive em Madrid, onde estuda Realização de Cinema. Era lá que estava quando o mundo começou a fechar-se, pandémico. Fala num início desafiante, em que as coisas fecharam de um dia para o outro, “num estado de emergência super vigilante e proibitivo” que a deixou tensa ao ponto de começar a odiar sair de casa. “Começava a hiperventilar com a ideia de ir meter o lixo à rua. Quando finalmente consegui viajar para Lisboa, quase que perdi o autocarro porque a ideia de entrar num Uber era surreal e impensável.”

Tem 24 anos e vive há quatro com um diagnóstico de ansiedade que “toma a forma de agorafobia e pensamentos OCD” que não consegue controlar ou diminuir. Confessa que a pandemia veio numa altura em que passava por uma das suas “fases mais complicadas” e que, talvez por isso, o início tenha sido “uma tentativa de auto-sabotagem completa.” “Não arranjei a maneira mais saudável de lidar com tudo porque não me permiti a qualquer tipo de resposta emocional ao que estava a sentir. Pensava sempre ‘aguenta até estares em Lisboa’. (…) Depois quando regressei, fiz a quarentena em Sesimbra e continuava a não conseguir chorar, já estava a achar estranho. Até que entrei na minha rua e comecei a soluçar instintivamente.” 

Já em Maio, o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde afirmava ter dados que demonstravam que o impacto da pandemia de Covid-19 na saúde mental da população mundial era “extremamente preocupante”. Essa consciência foi sendo ganha globalmente e de forma crescente à medida que relatos como o da Sara se foram divulgando e que vários especialistas e profissionais de saúde foram agindo e sendo vocais sobre a importância do tema, eternamente estigmatizado.

Pedro Morgado é médico psiquiatra e professor da Escola de Medicina da Universidade do Minho. Liderou um estudo com o objectivo de “caracterizar a saúde mental dos portugueses durante a pandemia mas sobretudo compreender de que forma é que os sintomas evoluíram ao longo do tempo.” Na conclusão, refere que “um número significativo de pessoas experienciou sintomas de ansiedade e stress no início da pandemia”, tendo-se adaptado progressivamente à nova realidade e, em consequência, diminuído esses mesmos sintomas.

O estudo teve como base vários inquéritos aos quais os mais de 1280 participantes responderam semanalmente a partir das suas casas, até ao final do período de Estado de Emergência. Segundo os dados recolhidos, foi possível identificar vários fatores associados a maiores níveis de sofrimento mental. Entre eles estão “o género feminino, a existência de doença psiquiátrica prévia ou o desemprego”, e ainda fatores de proteção “como a prática regular de exercício físico, a existência de um jardim em casa ou o consumo de menos de uma hora por dia de informação sobre a Covid-19.” Pedro salienta que existe uma “associação entre os sintomas de doença psiquiátrica e os consumos de informação sobre Covid-19 superiores a 1 hora por dia. Esta relação é indiciadora de que pode haver um impacto.”

Também Ana Matos Pires, Directora do Serviço de Psiquiatria da Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo, refere que o tratamento mediático das questões de saúde mental pode ser “muito útil e ajudar a disseminação de boas práticas ou, pelo contrário, ser mais uma fonte de risco.“ Para a médica psiquiatra, o papel da comunicação social pode ser muito importante para o aumento da literacia em saúde mental mas“o sensacionalismo e o alarmismo são o pior dos contributos que os media podem dar à saúde pública e à informação sobre saúde, e não só no aumento do medo, também e sobretudo no aumento da desinformação. Julgo que campanhas mediáticas muito bem feitas, com a ajuda dos profissionais de saúde mental, e reportagens e artigos sérios, ética e deontologicamente corretos são o caminho e uma ajuda de primeira importância.”

“O que me irritava pessoalmente era ler as dicas para passar a quarentena tipo ‘mantém uma rotina’ ou ‘faz exercício’. Eu muitas vezes acordava às 8h, outras às 17h e sentia-me de igual modo na merda e se calhar gostava que mais gente me tivesse dito isso.” confessa Sara, que a isso junta o “bombardeamento de informação” no WhatsApp: “audios, notícias… Foi sem dúvida a aplicação que mais influenciou o meu estado de espírito e que evitei constantemente durante a quarentena.”

A informação como uma bomba, também para Paula Santos. “Estar constantemente a ser bombardeada com o tema Covid-19 pode ser esgotante. Uma forma de lidar com o isolamento, o confinamento, o medo, a ansiedade, é, pelo menos para mim, tentar manter-me ocupada e tentar pensar noutras coisas.” Para si, a pandemia tornou mais presente um medo que conhece há 15 anos: “Quando falo em medo é o medo de ficar infectada e adoecer, medo de ficar infectada e infectar os outros, o medo de morrer.” A editora de vídeo de 33 anos explica-nos que o estar em casa e não ter contacto pessoal com ninguém a não ser a mãe não a afetou: “Até gosto de estar em teletrabalho. Sinto-me segura assim e, por consequência, não estou ansiosa por ter de ir trabalhar e poder ser infectada ou infectar os outros. No entanto, como não sei até quando irá durar o teletrabalho, sinto ansiedade sobre isso.” 

“Desconhecimento” e “incerteza” são as palavras que considera melhor descreverem a forma como lidou com a pandemia e o que a assusta na fase de desconfinamento progressivo que agora vivemos. “Continuamos no desconhecido, com incertezas. Isso desperta ansiedade e medo, mais do que o isolamento e mais do que o regresso à normalidade, porque é [o facto de] esse regresso ser feito ainda em desconhecimento que me assusta e me dá medo.”

Essa mesma instabilidade, incógnita e falta de controlo é referida também por Sara, e por Tiago Galvão, autor do podcast Naturalmente Ansioso, que partilha connosco que o começo da pandemia não foi especialmente difícil, mas que, com o passar do tempo, a indefinição do futuro se tornou uma luta diária: “Estava numa situação mental estável, mas as preocupações – sobretudo profissionais – começaram a ser uma constante e o facto de não poder sair de casa e não ter noção de como seria o dia seguinte deixaram-me mais ansioso.” E se cada pessoa acaba por lidar com a ansiedade com as estratégias que já tinha ou foi desenvolvendo ao longo da sua caminhada pessoal, o exercício físico como dado adquirido para Paula – porque a “ajuda a estar saudável física e mentalmente” – foi a descoberta da quarentena de Tiago, com as “aulas de yoga e os vídeos de crossfit”. “Acho que, mais do que tudo, há uma grande lição a retirar daqui: a saúde mental é realmente importante e é muito urgente que comecemos a levá-la mais a sério. Rapidamente se começou a falar de ansiedade e depressão, abriram-se linhas de apoio, falou-se disso nos media e penso que isso é algo muito importante a continuar daqui para a frente.”

Paula faz o mesmo apontamento, acrescentando a importância de “desmistificar ideias e ajudar as pessoas a não terem vergonha/medo de falar sobre saúde mental”. Sara usa a sua experiência como exemplo do combate ao preconceito: “Porque existe o estigma de que os problemas mentais são ultrapassáveis mediante a tua força e resiliência, passamos a vida a ouvir ‘tens de ter força’ e por isso desgastamo-nos emocionalmente a combater em silêncio e a contrariar um problema que depois se transforma em tudo o que és. Mas em retrospectiva só penso ‘Como é que esperei tanto tempo? Se eu partisse uma perna não ia logo ao hospital?’ Porque num mês de medicação voltei a ser eu e depois comecei a ter consultas de psicologia que são o melhor que qualquer pessoa pode fazer se não custassem quase um ordenado mínimo.”

Ambos os psiquiatras pedem mais investimento e recursos humanos. Para Pedro Morgado, há ainda um longo caminho a percorrer nesse domínio: “Precisamos de políticas efetivas de promoção da saúde mental que passam por: uma adequação da disponibilização de informação aos diferentes públicos; uma maior coerência nas abordagens públicas (será possível compatibilizar políticas públicas de redução do consumo de bebidas alcoólicas com a promoção de bebidas em eventos desportivos oficiais? Será possível compatibilizar o combate à dependência de jogo com a promoção permanente das entidades que lucram com o jogo?); uma acção mais pedagógica e mais responsável por parte dos órgãos de comunicação social na abordagem dos temas de saúde mental; e uma redução intensiva do uso de expressões e palavras estigmatizantes.” Para Ana Matos Pires “esta pandemia veio mostrar e, espero eu, alterar a maneira como a saúde mental é vista e tratada e reforçar a necessidade de uma articulação estreita entre ela e os Cuidados de Saúde Primários, por um lado, e a Saúde Pública, por outro.” 

A Directora do serviço de psiquiatria da ULSBA, que dirigiu uma linha de apoio telefónico aos profissionais de saúde da sua região, cujos “principais problemas reportados foram crises agudas de ansiedade e alterações do sono”, refere que os serviços de saúde mental do SNS têm de desenvolver estratégias de intervenção a mais longo prazo: “As consequências sobre a saúde mental vão fazer-se sentir para além da fase aguda, as consequências das dificuldades sociais e económicas que aí vêm sobre a saúde mental de todos nós vão ser muito importantes.” Fala da importância de se realizarem mais estudos longitudinais – como o liderado por Pedro – e da importância do acesso a “informação simples que permita um diagnóstico mais atempado e a informação dos locais onde se pode procurar ajuda no contexto do SNS parecem-me fundamentais.” Já o professor da UMinho defende que “temos ainda muito espaço para o desenvolvimento de ferramentas de auto-gestão emocional que ajudem as pessoas a auto-avaliarem a sua saúde mental e a obterem conhecimento acerca de formas de promoção da sua saúde.” 

Para quem já tem “uns anos disto”, como Paula, essas ferramentas de auto-gestão são fáceis de reconhecer e pôr em prática. Sabe que para lidar com as ansiedades do futuro terá de tentar manter a sua “tão importante” rotina: “É meter em prática o que sei. Fazer exercício físico, ver filmes e séries, ler, trabalhar… E, acima de tudo, pedir ajuda quando chegamos a um ponto em que isto já não chega”. Os recursos não são os mesmos para todos e, por isso mesmo, é importante perder tempo a olhar para dentro. Nesse aspecto, para Sara, os tempos de pandemia também tiveram benefícios: “É uma altura única que estou a viver e que dificilmente voltarei a viver numa fase que me obrigará a estar 100% dedicada ao presente.” A crise económica que se avizinha continua a tirar-lhe o sono, mas parte da experiência é tentar encontrar um equilíbrio na balança da vida. Sobre o futuro? “Gostava que não abdicássemos do gel desinfectante em todos os estabelecimentos, confesso que sou fã.”