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Estes valores levaram já o Governo a admitir que os preços da eletricidade para os consumidores portugueses podem afinal vir a subir em 2022. Mas “as subidas não serão muito elevadas”


Depois de vários dias de alívio, com preços ligeiramente mais baixos, o mercado grossista de eletricidade na Península Ibérica (Mibel) atingiu um novo máximo histórico e vai chegar esta quinta-feira a uma média de 141,71€/MWh em Portugal e Espanha. Isto depois de a energia elétrica ter oscilado entre um máximo de 155,62€/MWh e a um mínimo de 120,92€/MWh.

O anterior recorde tinha sido atingido na semana passada, a 2 de setembro, quando os preços grossistas chegaram aos 140,23 euros por MWh. Cinco dias depois, esta terça-feira, 7 de setembro, o Mibel caiu para os 127,36 euros por MWh, dando agora de novo um salto de 14 euros, para máximos acima dos 141 euros.

Estes valores (três vezes superiores ao ano passado) levaram já o secretário de Estado da Energia, João Galamba, a admitir que os preços da eletricidade para os consumidores portugueses podem afinal vir a subir em 2022. Só não sabe dizer ainda quanto — “se 1% ou 0,5%” — mas garantiu que “as subidas não serão muito elevadas” (na ordem dos 30%, 40% ou 50%) e serão seguramente abaixo do que se verificará nos restantes países europeus, o que “melhorará a competitividade do país”.

Na semana passada, o ministro do Ambiente, Matos Fernandes, disse que o Governo dispõe de muitas “almofadas” para inibir uma subida dos preços da luz, mas evitou falar ainda em subidas para 2022. Entre essas “almofadas”, hoje reiteradas por Galamba, está o fim do contrato da central a carvão do Pego (poupança de 100 milhões já no próximo ano), o fim da ininterruptibilidade e o “enorme aumento” das receitas do Fundo Ambiental em virtude da subida dos preços das licenças de CO2 (60% revertem para o sistema elétrico).

“Qual o efeito agregado destas medidas? Não sabemos dizer com rigor. Uma coisa é certa: as subidas [dos preços da eletricidade] não serão muito elevadas em 2022. Não podemos comprometer-nos com valores concretos, dizer se sobe 1% ou 0,5%, se não sobe de todo. O que sabemos é que face à enorme subida no preço grossista temos os meios para evitar aumentos significativos para os consumidores domésticos. E tudo faremos para que não haja um choque”, garantiu.

No entanto, lembrou que falta ainda mais de um mês até que a ERSE revele a sua proposta tarifária para 2022, sendo que só em dezembro ficarão fechadas as tarifas para o próximo ano. “As contas só se fecham mais à frente e ainda não temos toda a informação. Temos também o Orçamento do Estado, onde esses temas poderão ser debatidos As subidas de eletricidade, a existir, serão reduzidas. Veremos no dia 15 de outubro”, disse.

E frisou: “Ao contrário do que tem acontecido em Espanha, os consumidores domésticos em Portugal não têm tido aumentos do preço da eletricidade de 15, 20 ou 30%. Aliás, ainda não tiveram aumento nenhum, à exceção da atualização de 3% na tarifa regulada em julho”.

A mesma sorte não têm as empresas e as indústrias. “Nos industriais, por razões várias, o impacto é diferente, porque estão mais expostos ao preço da energia. E isto é tanto mais verdade quanto mais eletrointensivos forem”. Para estes grandes consumidores, o Governo está já a preparar um pacote de medidas para mitigar o impacto dos preços altos no mercado grossista, sobretudo através de incentivos ao autoconsumo e instalação de sistemas solares fotovoltaicos.

Referindo-se às frequentes comparações com Espanha, cujo Governo está já a agir no imediato para travar o impacto dos preços elevados no mercado grossista ibérico nas faturas das famílias com um “pacote de leis”, o governante rejeitou de novo a hipótese de Portugal seguir esse exemplo.

“Não enganaremos os consumidores com medidas no curto prazo. Não criaremos ganhos ilusórios no prazo que geram juros no longo prazo, como em Espanha. Se seguíssemos a medida espanhola [relativamente às barragens], como quer o Bloco de Esquerda, isso só abrangeria 199 MW, com um impacto de 7 a 8 milhões de euros. Não é uma medida eficaz, nem de grande monta, é um fogacho. Só cria litigância e custos para os consumidores”, disse Galamba.

Na opinião do governante, “Espanha é um péssimo exemplo de um país que fez tudo aquilo que não se deve fazer, com péssimos resultados para os consumidores espanhóis e agora tem de devolver essas verbas com juros. Não percebemos a fixação copy paste com medidas espanholas que não têm aplicação em Portugal”.

Mas não é só na Península Ibérica que os preços da eletricidade estão a subir. No início desta semana os preços do gás natural chegaram também a máximos históricos na Europa, ameaçando fazer disparar em 20% as faturas de energia dos consumidores de países como o Reino Unido ou a Alemanha, de acordo com os analistas do Citigroup, citados pela Bloomberg.

Na Alemanha foram já registados picos de 90€/MWh, o dobro face ao início do ano, e acima dos anteriores recordes atingidos no verão de 2008 quando o petróleo chegou a 105 dólares por barril. Também no mercado britânico, os preços quadruplicaram neste início de semana para 1,52 euros por unidade, com algumas centrais elétricas a serem pagas até 4.662 euros por MWh para produzirem energia. O vento apenas foi responsável por 4,9% da energia produzida (face a 18% no ano passado), o que obrigou a recorrer mais às centrais a gás e a carvão para acomodar a procura.

Face a estes valores, por terras britânicas, várias comercializadoras em mercado já aumentaram as tarifas para os clientes domésticos, o que pode revelar-se desastroso assim que comece o tempo mais frio e os sistemas de aquecimento estejam ligados em permanência neste país do norte da Europa.