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Padre na maior paróquia de Pemba, Ricardo Marques fala de Cabo Delgado, há quatro anos debaixo de ataques terroristas. E alerta: é fácil recrutar jovens sem esperança.


Ricardo Marques tem 43 anos e √© p√°roco desde 2015 na par√≥quia de Maria Auxiliadora, a maior na cidade de Pemba, na fustigada prov√≠ncia de Cabo Delgado em Mo√ßambique. Ao fim de quatros anos de ataques terroristas e mis√©ria crescente, lamenta a falta de informa√ß√£o por parte das autoridades e fala das condi√ß√Ķes em que vive a popula√ß√£o e de como a Igreja tem procurado ser uma voz contra o medo ‚Äď e de como precisam de apoios e de volunt√°rios em todas as √°reas, mesmo agora que o foco da comunidade internacional se dirige para outros conflitos. O sacerd√≥cio, conta, foi uma voca√ß√£o tardia. Filho de Moita do Norte, em Vila Nova da Barquinha, formou-se em inform√°tica e foi professor durante oito anos. Tinha 28 quando quando entrou para o semin√°rio na Sociedade Mission√°ria da Boa Nova, j√° a acreditar que poderia fazer a diferen√ßa em √Āfrica. Numa passagem sobre Lisboa, falamos sobre essa prov√≠ncia arrasada nos √ļltimos quatro anos, desde que o Estado Isl√Ęmico reivindicou o primeiro ataque em Moc√≠mboa da Praia, a 5 de outubro de 2017. As estimativas apontam para mais de 1300 mortos e mais de um milh√£o de deslocados desde ent√£o, a maioria a passar fome, com aldeias dizimadas, uma viol√™ncia irracional e traumas que v√£o permanecer por gera√ß√Ķes. De f√©rias em Portugal, para abrir horizontes sobre a forma de ajudar, apela √† solidariedade com a coragem de quem acredita que a forma de semear o futuro √© n√£o pactuar no dia a dia com a explora√ß√£o e a indiferen√ßa.
 
Pemba já é casa?

Já. Estou em Pemba há sete anos, desde janeiro de 2015. O povo é acolhedor, simples, sinto-me bem lá.

O que se sente nesta Lisboa, a 11 mil quilómetros?

√Č tudo diferente. Pemba √© capital de Cabo Delgado, a prov√≠ncia mais a norte de Mo√ßambique. Como capital n√£o √© uma cidade grande e mesmo sendo uma capital √© marcada pela pobreza, pelo subdesenvolvimento. √Č uma cidade que sobretudo desde 2012 se estava a desenvolver mas n√£o de forma ordenada. Tem muitas estruturas do tempo colonial mas a maioria das pessoas vive em condi√ß√Ķes muito mais fr√°geis, em casas feitas de matope, uma terra argilosa, e de bambu. Normalmente s√£o casas com duas ou tr√™s divis√Ķes. Quem entra na cidade de Pemba v√™ os edif√≠cios coloniais mas quando se entra nos bairros o que se v√™ √© isso, essas casas e a mis√©ria em que vivem aquelas pessoas. Causa um certo impacto, sobretudo quando sa√≠mos daqui.

O que é que o impressionou mais?

Eu já tinha estado em Nampula como seminarista. Vivi em Malema, no meio do mato, durante um ano. Mas é a pobreza em que as pessoas vivem que impressiona. Todos os dias são um exercício constante de sobrevivência. A maioria das pessoas não tem trabalho. E no caso de Pemba nem têm trabalho nem têm espaço de cultivo. Basicamente existem duas formas de subsistência. Uma é trabalhar para o Estado. O salário mínimo lá será 40 ou 50 euros por mês, 4000, 4500 meticais.

Dá para quê?

Muito pouco. Um saco de arroz para uma família custa 1500, 2000 meticais. Pouco mais resta. E quando digo família são famílias grandes, 10, 15 pessoas por casa, que agora com os deslocados do conflito às vezes vai para 50, 60 pessoas por agregado. E um dos problemas de Pemba neste momento é mesmo este: só no ano passado tínhamos 150 mil deslocados em Pemba, de um milhão de pessoas que tiveram de fugir das suas casas em Cabo Delgado.

E essas 50, 60 pessoas ficam todas na mesma casa?

Naturalmente n√£o cabem, grande parte das pessoas dorme ao sol e √† chuva, com pequenas coberturas, redes mosquiteiras quando h√° e sujeitas ao tempo que fizer. N√£o h√° casas de banho, quando muito t√™m pequenas latrinas. Acresce uma grande dificuldade no acesso a √°gua. As canaliza√ß√Ķes que existem em Pemba foram feitas h√° 40 ou 50 anos por uma organiza√ß√£o italiana mas nunca foram atualizadas para o aumento da popula√ß√£o, que aconteceu sobretudo a partir de 2013. At√© a√≠ a cidade era como outras vilas, meio mato. O crescimento que foi exponencial n√£o teve apoio de infraestruturas. A maior parte das fam√≠lias n√£o t√™m √°gua em casa, as mulheres fazem grandes desloca√ß√Ķes para ter √°gua, as condi√ß√Ķes de higiene s√£o muito pobres.

Quem não trabalha para o Estado, vive de quê?

Pequenos biscates ou com√©rcio. Vendem carv√£o, produtos alimentares, mas tudo muito reduzido. N√£o d√° para nada. Os grandes armaz√©ns que existem est√£o na m√£o de grandes empres√°rios, a maioria de religi√£o isl√Ęmica, que em Cabo Delgado √© a religi√£o maiorit√°ria.

Isto na região mais rica de Moçambique.

Sim, em pedras preciosas, g√°s natural. Dizem que tem a maior bolsa de g√°s natural de toda a √Āfrica, bolsas de petr√≥leo, nas zonas onde aconteceram os √ļltimos anos os ataques, onde foi encerrado o projeto da Total.

Com é que o povo olha para essa riqueza?

O que o povo pensa não posso dizer, mas tem sido muito problemático. O que conseguimos ver é que aquilo que deveria ser uma fonte de riqueza e desenvolvimento para toda uma província não é e já não era antes deste conflito. As pessoas podiam ter mais oportunidades de emprego, que permitissem corrigir as assimetrias, mas o que se vê é o contrário. A exploração é feita por empresas internacionais que não empregam locais ou se empregam é à custa de violação de direitos humanos, de exploração.

N√£o lhes pagam?

Muito pouco. Não temos acesso a muita informação.

Tem sido um dos problemas de Cabo Delgado, a pouca informação que é dada até sobre a evolução do conflito.

Sim, n√£o temos dados que nos permitam perceber muito bem o que se passa. N√£o digo que a Igreja tivesse de ter, mas as pessoas. Tudo aquilo que aqui damos por garantido, as pessoas serem informadas do que se passa, a forma como se discute por exemplo por estes dias o Or√ßamento do Estado, l√° isso n√£o √© p√ļblico. A sociedade civil tem questionado muita coisa, por exemplo a explora√ß√£o das pedras preciosas. Por lei as empresas t√™m de declarar, o Estado tem direito a 2,5%, mas isso √© o que entra no mercado legal, n√£o sabemos o que mais h√°.

As pessoas saem de Pemba à procura de pedras preciosas?

Claro, mas quando o fazem h√° viol√™ncia, mortes. Antes destes ataques esse foi um dos grandes combates de D. Luiz Fernando Lisboa, o antigo bispo de Pemba, ao confrontar-se com a viola√ß√£o de direitos humanos nas explora√ß√Ķes. A regi√£o das pedras preciosas fica a 200 km de Pemba, Montepuez, e at√© o acesso √†s instala√ß√Ķes era dif√≠cil. As empresas dizem o contr√°rio, que somos bem vindos, mas a partir de determinada zona torna-se muito dif√≠cil. A lei previa que a popula√ß√£o fosse auscultada e apoiada nas desloca√ß√Ķes mas isso nunca aconteceu. Em Pemba estamos agora a ter de novo um destes problemas, num dos bairros mais pobres junto ao mar. Nunca deram autoriza√ß√£o de constru√ß√£o mas as pessoas instalaram-se l√°. Agora n√£o podem construir porque h√° um empreendimento que l√° querem fazer. Para onde v√£o? Deslocam-se de novo, v√£o para terrenos sem saneamento, sem escola, mais longe da cidade e as pessoas com os baixos sal√°rios que t√™m ainda v√£o ter de os gastar nos transportes. E √© disto que a popula√ß√£o se queixa. Tem sido uma regi√£o ignorada, com um passado muito violento, que j√° vinha dantes destes conflitos. A guerra colonial, a guerra civil que se sucedeu, sempre tiveram em Cabo Delgado das manifesta√ß√Ķes mais violentas.

Todas as famílias carregam essas marcas? 

A maioria. E creio que ajuda a perceber o ambiente que se vive: percebe-se que é um povo muito marcado pelo medo.

Em que é que vê o medo?

Na nossa constante tentativa de incentivar as pessoas a denunciar viola√ß√Ķes de direitos humanos, injusti√ßas e na dificuldade que as pessoas t√™m em faz√™-lo por receio de repres√°lias, de viol√™ncia. E √© um medo fundado. Mesmo nos bairros h√° situa√ß√Ķes de extrema viol√™ncia, por parte das autoridades e entre as pr√≥prias pessoas. √Č normal uma menina a partir de determinadas horas mais tardias ser espancada ou violada. No nosso trabalho temos de ter tudo isto presente. Sei que n√£o posso fazer uma celebra√ß√£o tardia porque as pessoas correm esses riscos.

Até que horas celebra?

Até às 19h30, 20h podemos trabalhar, a partir daí precisamos de mais cuidado.

Faz quatro anos este m√™s que Cabo Delgado viveu o primeiro ataque ligado ao Estado Isl√Ęmico, em Moc√≠mboa da Praia. Que mem√≥ria tem desse dia?

Recordo-me das imagens que recebi no telem√≥vel. A televis√£o n√£o fala muito. Ainda hoje n√£o percebi se faz bem ou se faz mal. Percebo que √© preciso cautela na informa√ß√£o por causa da interven√ß√£o pol√≠tica e militar, algum controlo de informa√ß√£o, mas de alguma maneira deveria haver algum esclarecimento que at√© agora n√£o temos. Em quatro anos de conflito n√£o ouvimos um pronunciamento oficial. Mesmo agora que est√° a haver algum refor√ßo da interven√ß√£o militar, l√° pouco √© dito. Percebe-se que h√° um controlo muito forte da informa√ß√£o tentando transmitir uma sensa√ß√£o de seguran√ßa mas que sentimos que n√£o corresponde √† realidade. E foi nesse sentido que a Igreja e Dom Luiz Fernando Lisboa (antigo bispo de Pemba) fizeram muita press√£o ao longo dos √ļltimos anos, o que levou √† interven√ß√£o da Comiss√£o Europeia. A Igreja n√£o tem de intervir em √°reas governamentais, mas fazemos a leitura do terreno e perguntamos porqu√™: o que √© que se passa, porque √© que as autoridades governamentais parecem sistematicamente recusar a ajuda da comunidade internacional e agora o que temos dito √© que √© importante que se perceba que n√£o vai chegar uma interven√ß√£o militar para resolver o problema, porque √© necess√°rio perceber o que est√° na sua origem. E voltamos ao in√≠cio, que s√£o as condi√ß√Ķes em que vivem aquelas pessoas h√° muito tempo, condi√ß√Ķes de pobreza, de mis√©ria.

Nesse primeiro ataque em Mocímboa da Praia, disse-se no início que era um ato isolado.

Sim, come√ßou por falar-se de jovens descontentes e do grupo Al-Shabab, que n√£o teria a ver com o grupo terrorista com esse nome. O que nos causou logo estranheza foi a forma como entraram a matar toda a gente e depois logo naqueles primeiros v√≠deos vimos os jovens a i√ßar a bandeira do Estado Isl√Ęmico, o que no contexto de Cabo Delgado acabava por ser um fen√≥meno estranho.

Não havia sinais de radicalização?

J√° havia, mas ao contr√°rio do que se possa pensar esta n√£o √© uma guerra entre Isl√£o e o Cristianismo. Depois disso atacaram todos. Tenho oito anos de Mo√ßambique e nunca tive problemas com mu√ßulmanos, tive at√© experi√™ncias muito boas. Quando aconteceu o furac√£o Kenneth em 2019, que foi violent√≠ssimo em Cabo Delgado ‚Äď e s√≥ n√£o foi pior porque t√≠nhamos tido o Idai na Beira, que nos permitiu antecipar um pouco as consequ√™ncias ‚Äď, a onda de solidariedade partiu da Igreja Cat√≥lica e dos mu√ßulmanos, que se juntaram. Na nossa par√≥quia ajud√°mos cerca de mil pessoas e a maioria dos donativos que recebemos n√£o foram de crist√£os, foram de mu√ßulmanos. Portanto n√£o √© verdade que ali houvesse um desentendimento entre crist√£os e mu√ßulmanos. Quando estes fen√≥menos come√ßaram tivemos a√ß√Ķes conjuntas pela paz.

Na altura o Conselho Isl√Ęmico de Mo√ßambique em Nampula achou que seria um ataque pontual. Que sinais √© que havia de radicaliza√ß√£o?

Alguns l√≠deres isl√Ęmicos j√° tinham denunciado ao Governo uma movimenta√ß√£o estranha e come√ßou-se a perceber que havia jovens que estavam a ser recrutados e treinados fora de Mo√ßambique, no Congo, na Som√°lia.

Aproveitando o descontentamento, a miséria.

√Č muito f√°cil recrutar. N√£o pensemos que muitos deles s√£o recrutados por convic√ß√£o, n√£o s√£o. Basta chegar ao p√© de um jovem que n√£o tem esperan√ßa nenhuma, oferecer-lhe um valor x... e este √© um processo que come√ßa muito anos de 2017. Eram conhecidos focos de radicaliza√ß√£o, numa zona junto ao porto mar√≠timo e outro mais fora de Pemba. Tamb√©m havia outros sinais que nos faziam questionar, como a prolifera√ß√£o de mesquitas. Sab√≠amos que o dinheiro n√£o vinha de Pemba, algu√©m tinha de as estar a financiar. √Č imposs√≠vel que de um momento para o outro aparecesse uma fonte de rendimento t√£o grande. O que percebemos √© que algu√©m estava a financiar aquilo.

Quem?

Tenho uma ideia, talvez a Ar√°bia Saudita, mas n√£o quero entrar por a√≠. O que penso √© que este √© um problema que continua a merecer um estudo mais profundo. Nunca foi s√≥ um problema de Mo√ßambique e isso na minha opini√£o foi algo que se demorou a entender. Na √Āfrica subsaariana temos este problema na Nig√©ria, na Som√°lia, na Tanz√Ęnia. N√£o √© um problema de Mo√ßambique e, se o queremos resolver, √© preciso envolver toda a comunidade internacional. Havia estes sinais, em outubro de 2017 h√° o primeiro ataque, come√ßam a repetir-se na zona Norte e come√ßam a estender-se at√© √† zona de Macomia, que fica tamb√©m a uns 200 quil√≥metros de Pemba, at√© chegarem muito perto da cidade. H√° quem diga que tentaram entrar em Pemba mas n√£o conseguiram. A partir de 2019 a situa√ß√£o agrava-se e percebemos, n√£o por informa√ß√Ķes de l√° mas por analistas daqui, aquilo que j√° antes todos suspeit√°vamos: que n√£o est√°vamos a falar de grupo isolados mas de uma liga√ß√£o ao Estado Isl√Ęmico. A partir da√≠ o n√≠vel de viol√™ncia aumenta exponencialmente.

Lembra-se de um momento em que tenha sentido esse descontrolo?

Não há um dia, foi progressivo. Lembro-me de um momento em que disseram que teriam sido raptados cerca de 50 jovens muçulmanos e todos foram mortos. Vimos o que era a escalada. Em 2020 acompanhámos o caso de duas irmãs da da Congregação de São José de Chambery raptadas na zona de Mocímboa e descreveram uma experiência aterradora. Foram libertadas numa intervenção da diocese de Pemba com as autoridades mas foi preciso tirá-las de Cabo Delgado. A partir daí foi uma constante de raptos, mortes e as pessoas a fugir, a maioria para o mato. Geralmente as mulheres são poupadas para o serviço, mas os homens são mortos logo ali, esquartejados, decapitados. Mortos da forma mais horrorosa possível. Há histórias de maridos que conseguiram fugir para o mato mas, passando fome, regressaram e foram apanhados pelos terroristas. Conheci um ou dois que tiveram sorte porque foram dados como mortos, baleados e esquartejados, conseguiram fugir e sobreviveram.

Eram jovens dali a fazer isso aos seus? Como?

Não sei responder, mas isso é um problema. Porque se são jovens dali, se porventura têm uma intervenção com alguém conhecido matam o conhecido, para não serem reconhecidos. A violência é sempre irracional mas se for num contexto de uma guerra convencional consegue perceber-se que se o outro ataca tenho de me defender. Aqui o que vemos é uma escalada brutal da irracionalidade. Matam toda a gente. As crianças geralmente recrutam-nas, porque é mais fácil fazer uma radicalização. Os adultos, especialmente os homens, ou há uma conversão obrigada ou não havendo essa conversão, o que é um ato de heroísmo naquele contexto, a brutalidade não tem fim.

Quantas pessoas deslocadas chegaram √† sua par√≥quia nos √ļltimos anos?

Como dizia, em Pemba temos cerca de 150 mil deslocados. A minha par√≥quia √© a maior de Pemba, a par√≥quia de Maria Auxiliadora. Teremos recebido 20, 30 mil pessoas. H√° quatro par√≥quias na cidade e depois h√° uma √°rea onde hoje temos uma concentra√ß√£o maior de pessoas que √© Metuge, que foi onde muitas pessoas se instalaram quando o houve os ataques mais perto de Pemba e fugiram de Quissanga e de outros locais. Temos feito ali uma grande interven√ß√£o junto com as autoridades em seis ou sete acampamentos, onde h√° 15 a 20 mil pessoas em cada um. Um dos grandes problemas que temos √© que as pessoas nestes acampamentos continuam a viver sem condi√ß√Ķes. Onde as colocar? Uma boa parte vai para fam√≠lias de acolhimento, nas condi√ß√Ķes que j√° descrevi, outras s√£o reassentadas em terrenos disponibilizados pelo Governo, terrenos sem nada.

O trabalho que faz na paróquia acaba por ser mais de subsistência material do que espiritual?

Tem de ser. Não nos querendo substituir a ninguém, o nosso raio de intervenção tem de ser vasto e sempre foi, não é de agora. Quando falamos de uma população em que a maioria vive abaixo do limiar de pobreza, com menos de dois dólares por dia, tem de ser assim. Trabalhamos com a Cáritas diocesana, que articula a resposta com o Programa Alimentar Mundial da ONU, com a Unicef, a Cruz Vermelha e na nossa paróquia acaba também por ser esse o foco a nível local. Como vamos trabalhar o lado espiritual com pessoas que passam fome?

Como é o seu dia?

Passa muito pela assist√™ncia aos doentes, a assist√™ncia alimentar, grupos de apoio psicossocial e depois a parte espiritual, com as celebra√ß√Ķes.

Quantas pessoas vão à missa?

Durante a semana s√£o grupos mais pequenos mas aos domingos na igreja paroquial fora da pandemia tenho 900 a mil pessoas na Igreja.

E cabem?

Nem todas sentadas, mas cabem, √© uma Igreja cheia. Apesar de a religi√£o isl√Ęmica estar em maioria, o cristianismo desde a d√©cada de 90 teve uma grande implementa√ß√£o tamb√©m devido a migra√ß√Ķes para a cidade de Pemba, por exemplo da etnia maconde, que √© de maioria crist√£.

Que limita√ß√Ķes trouxe a pandemia?

O Governo reabriu o culto h√° pouco tempo mas permite poucas pessoas de cada vez, em vez de celebrar uma vez ao domingo celebro duas ou tr√™s vezes. Tamb√©m houve uma menor presen√ßa nas comunidades, que foi algo que as pessoas sentiram muito. Tentamos estar muito presentes. A nossa par√≥quia, entre crist√£os e mu√ßulmanos, deve ter 130 a 140 mil pessoas. Em 2017 Pemba, segundo os censos, tinha 200 mil pessoas; Cabo Delgado 2,4 milh√Ķes. E por aqui d√° para ver a dimens√£o da trag√©dia: quando hoje falamos de um milh√£o de deslocados, d√° quase metade da popula√ß√£o de Cabo Delgado que teve de fugir das suas casas. E virem mais 150 mil pessoas para Pemba foi passar quase para o dobro da popula√ß√£o sem infraestruturas para isso. Neste momento a cidade de Pemba n√£o tem mais espa√ßo para ningu√©m. Est√° a alargar-se para a periferia mas tudo sem condi√ß√Ķes nenhumas.

O que diz nas suas homilias perante esta realidade?

Fa√ßo o trabalho normal de um p√°roco, procuro ajudar as pessoas a ter um caminho mais feliz. N√£o somos cr√≠ticos de ningu√©m, e ali especificamente nem contra a Frelimo, nem contra a Renamo, nem contra ningu√©m, embora √†s vezes a posi√ß√£o da Igreja seja confundida com interven√ß√£o pol√≠tica. Da mesma forma que quando o Papa Francisco publicou a enc√≠clica Laudato Si foi muito criticado, por tocar no interesses econ√≥micos, corporativos. A nossa preocupa√ß√£o √© que as pessoas assumam valores humanos, √©ticos, e naturalmente que ao fazerem-no ir√£o sempre mexer com os interesses de algu√©m. Na Maria Auxiliadora, o meu primeiro trabalho √© escutar as pessoas, observar bem o ambiente. N√£o conseguimos fazer nenhum trabalho de relevo se n√£o percebermos muito bem o ambiente onde estamos. Isso √© v√°lido para l√° e para aqui, mas l√° muito mais, porque √© um ambiente complexo a v√°rios n√≠veis, sociais, culturais, com um passado pesado. Em Pemba confluem v√°rias etnias ‚Äď macua, maconde, muani.

Teve de aprender muito em oito anos? 

Sempre com o povo. O povo sabe ler os cora√ß√Ķes, especialmente do estrangeiro.

Como foi para eles ver chegar um padre com a sua estatura?

Quando o povo entende e aceita que estamos com o cora√ß√£o, acolhe. Para n√≥s √© um grande desafio e ao fim de oito anos continuo a aprender. Tinha a experi√™ncia de Nampula, mas viver no mato √© diferente de viver na cidade. E em Nampula tinha estado s√≥ com uma etnia, a macua. Em Pemba s√£o v√°rias, com diferentes dialetos e tradi√ß√Ķes. Se eu aprendo qualquer coisa de macua, maconde vai perguntar: e n√≥s? E depois a muani.

Dá a missa em que língua?

Na cidade em português, entendem, com exceção dos mais velhos, mas é mais próximo dos serviços. Nas comunidades já não, mas o povo ajuda. Primeiro porque o português lá é mais aberto, mais pausado e depois vamos perguntando como se diz isto, como se diz aquilo e vamos aprendendo, mas o trabalho fundamental é a presença, a escuta. Na comunidade quando há festas o padre participa, está com as pessoas e isso é o mais importante, sentirem que estamos com eles e isso foi de facto o mais limitador da pandemia.

Sentiu que as limita√ß√Ķes foram excessivas?

As preocupa√ß√Ķes l√° est√£o muito al√©m da covid-19. J√° nem falo do conflito, mas mal√°ria, c√≥lera. Todos os anos morrerem centenas de milhares de pessoas com estas doen√ßas. Aquilo que vivemos aqui no mundo ocidental com esta pandemia √© o dia a dia l√°.¬†

A discussão em torno da distribuição das vacinas da covid-19 aos países mais pobres já fazia falta nessas frentes?

√Č um debate que se justifica, claro, mas n√£o podemos ser ing√©nuos. N√£o podemos s√≥ responsabilizar as autoridades africanas pelos problemas que se vivem l√°, a responsabilidade tamb√©m √© nossa, da comunidade internacional. E o mesmo em rela√ß√£o aos ataques terroristas. S√£o terroristas, com certeza, mas quem √© que foi para l√° explorar o g√°s, o petr√≥leo, as pedras preciosas sem haver um retorno para a popula√ß√£o? Franceses, italianos, chineses, que t√™m arrasado os recursos naturais e que corrompem. H√° sempre quem corrompe e quem √© corrompido. H√° um n√≠vel de corrup√ß√£o muito alto. Uma pessoa vai pela rua, encontra um pol√≠cia e automaticamente quando lhe pedem a carta de condu√ß√£o j√° se espera que meta uma nota por baixo. Est√° entranhado. E voltando ao que √© a nossa mensagem, quando fa√ßo notar que corromper ou ser corrompido n√£o √© √©tico, n√£o √© moral, a resposta que muitas vezes tenho √© que √© normal e √© isso que tentamos contrariar.

Depois de deixar de ser bispo de Pemba, D. Luiz Fernando Lisboa revelou que tinha recebido amea√ßas de morte do Governo mo√ßambicano por ter falado da guerra em Cabo Delgado. N√£o tem medo quando faz essas den√ļncias?

Medo não tenho. Costumo dizer que mal seria se um padre como eu, como todos nós em Cabo Delgado, que tanto lutamos para que as pessoas aprendam a desembaraçar-se do medo, tivesse eu próprio medo. Não quer dizer que esteja alheado da realidade e tenho noção do que pode acontecer.

Alguma vez teve algum momento de tens√£o?

N√£o, tive situa√ß√Ķes pr√≥prias do ambiente de Pemba, por exemplo ter pol√≠cia secreta nas celebra√ß√Ķes, no fundo a mesma coisa que aconteceu a D. Luiz. √Č preciso ter presente o contexto. Ele entra na diocese em 2014, j√° tinha trabalhado l√° antes, conhecia bem o ambiente e quando foi ordenado bispo j√° tinha ideia do que se vivia na regi√£o. Dom Luiz Fernando Lisboa sempre se caracterizou por aquilo que a Igreja deve ser: a voz da verdade, a voz do povo e Cabo Delgado obriga-nos a agir assim. E note-se que quando ele fez os seus pronunciamentos p√ļblicos nunca foi contra as autoridades mas as coisas ca√≠ram mal em alguns setores.

D. Luiz Lisboa disse que o Governo tinha ignorado os problemas em Cabo Delgado. Sentem que a história poderia ter seguido outro curso? 

Se tivesse havido mais aten√ß√£o a todos os sinais, se as den√ļncias de radicaliza√ß√£o tivessem sido levadas a s√©rio, talvez a dimens√£o tivesse sido diferente. Depois, perante a escalada de viol√™ncia, se n√£o tivesse havido tanta indiferen√ßa, talvez n√£o tiv√©ssemos chegado a tantos mortos, tantos deslocados. Podemos falar do terrorismo como podemos falar do ciclone Kenneth: as autoridades reagiram mas foram em meu entender lentas de mais. E as pessoas percebem isso, n√£o √© que sejam manipuladas pela Igreja. Tenho uma grande admira√ß√£o pelo povo.

Sentem que hoje h√° alguma melhoria?

Pouca. Em meu entender, o que percebemos é que alguma coisa não está a funcionar, que há alguma falta de estratégia.

Mas a situação está mais calma? Tem havido notícia de várias localidades reconquistadas ao controlo do Daesh, desde logo Mocímboa da Praia, no início de agosto.

Aparentemente est√£o mais calmas. Isso √© o que as autoridades transmitem mas o que vemos muitas vezes √© contradit√≥rio. √Č como dizia: percebo a preocupa√ß√£o de transmitir uma imagem de seguran√ßa para n√£o gerar o p√Ęnico. Percebe-se que por atua√ß√£o das tropas do Ruanda, as zonas de Palma e Moc√≠mboa aparentemente t√™m um maior controlo, mas h√° not√≠cias de confrontos noutros s√≠tios em que a situa√ß√£o n√£o est√° t√£o calma assim e isso n√£o se ouve. O discurso nos √ļltimos quatro anos por parte das for√ßas de seguran√ßa tem sido de que est√° tudo controlado e volta e meia acontece o mesmo. Portanto continuamos a sentir um ambiente de inseguran√ßa total, n√£o sabemos.

Tem havido um apelo a um diálogo com os insurgentes. Foi um repto deixado já este mês pelo Centro para a Democracia e Desenvolvimento. Parece-lhe que é possível?

O di√°logo √© sempre necess√°rio, nem poderia a Igreja advogar outra coisa, mas o problema que aqui se coloca √© dialogar com quem? N√£o h√° um rosto nem se sabe ao certo quais s√£o as motiva√ß√Ķes. A que salta mais √† vista √© o radicalismo isl√Ęmico, mas sabemos que h√° interesses econ√≥micos. Como √© que se justifica que num conflito como este em que as pessoas foram arrancadas √† for√ßa dos seus terrenos haja projetos para as mesmas √°reas?

Mas parece-lhe que existe uma conivência do Governo?

Não digo do Governo, mas há pessoas que ganham com este conflito, seja por que modo for, até pelo tráfico de armas. Portanto o diálogo seria o ideal mas com quem? Não sei responder sobre o que será o melhor caminho. Não posso advogar uma intervenção militar...

O recurso a mercen√°rios por exemplo...

Sim. Percebo que haja necessidade de uma intervenção, mas tem de ser bem planeada.

H√° sinais de que o recrutamento para o Estado Isl√Ęmico continua a acontecer em Cabo Delgado?

Temos de o admitir. E mesmo pessoas que podem ter sa√≠do, √© preciso perceber como pode ser feita a reintegra√ß√£o e o que por vezes ouvimos √© justi√ßa feita por m√£os pr√≥prias. Como fazer o di√°logo com as v√≠timas, reintegrar algu√©m que participou na morte de um familiar de um vizinho? S√£o situa√ß√Ķes que exigem muita prud√™ncia. Temos de pensar em todas estas dimens√Ķes. Mas √© natural que existam terroristas em Pemba, porque tamb√©m n√£o s√£o ing√©nuos e noutras localidades, quando veem que est√£o em desvantagem, podem misturar-se entre as pessoas. E a√≠ a inseguran√ßa de que falava, que se vive em Pemba e em todo Cabo Delgado.

Tem feito apelos à solidariedade, aproveitando esta passagem por Portugal. Sente que a comunidade internacional, a sociedade civil, continua envolvida?

As pessoas est√£o sens√≠veis. Sabemos que quando h√° um foco em algum s√≠tio, as aten√ß√Ķes, desde logo da comunica√ß√£o social, apontam para l√°. Foi o que aconteceu em Cabo Delgado em abril, maio e os olhares viraram-se todos para n√≥s. Mas depois veio o Afeganist√£o e o foco passou a ser o Afeganist√£o.

Em que se sente essa menor atenção?

V√™-se que algumas organiza√ß√Ķes saem do terreno, h√° menos donativos. As pessoas gostam de ajudar mas o foco acaba por variar. E isso tem sido uma das preocupa√ß√Ķes nestes dias em que tenho estado c√° e tenho encontrado muita sensibilidade e generosidade. As pessoas d√£o o que podem, claro que nunca √© tudo o que seria necess√°rio l√°.

O que vos falta mais falta?

Tudo. Alimenta√ß√£o, roupa, cal√ßado. Al√©m da assist√™ncia de emerg√™ncia tentamos em articula√ß√£o com as autoridades trabalhar na promo√ß√£o do desenvolvimento, investir na forma√ß√£o no campo da √©tica, social, profissional. E quando converso com as pessoas c√° procuro alargar as possibilidades do que pode ser esta ajuda. Geralmente as pessoas pensam num donativo em dinheiro, que acaba por ser mais f√°cil do que transportar bens para l√°, mas podem contribuir de muitas outras maneiras. Podem associar-se a associa√ß√Ķes no terreno, a Ajuda √† Igreja que Sofre (AIS), a Oikos, a C√°ritas ou atrav√©s da Sociedade Mission√°ria da Boa Nova, a que eu perten√ßo, e at√© mesmo pensar em projetos de voluntariado, tanto indo para l√° ou apoiar por exemplo jovens que venham estudar para c√°. Temos alguns seminaristas de Cabo Delgado a estudar na diocese de Braga, seria algo que se poderia estender. Penso que se pode fazer muita coisa interessante, l√° e aqui.

Precisam de volunt√°rios de que √°reas?

Todas. Queremos dar forma√ß√£o na √°rea jur√≠dica, economia, psicologia, que l√° acaba por ser assegurada por religiosos. A √ļnica coisa que t√™m de preocupar-se √© com a desloca√ß√£o. Casa, comida, organizamos. Claro que temos uma capacidade limitada, mas podemos organizar e podem organizar-se projetos com as par√≥quias, de gemina√ß√£o e mesmo com grupos de n√£o crentes.

Morreram mais de 1300 pessoas nos ataques terroristas. Há muitos jovens órfãos em Pemba?

Muitos, a maioria. Em Pemba h√° muitos jovens a viver com familiares ou com desconhecidos. √Äs vezes quando vejo dois jovens e quero entender os la√ßos familiares e um me diz ‚Äú√© meu irm√£o‚ÄĚ tenho de perguntar que tipo de irm√£o √©, se √© de sangue ou n√£o. √Č cultural.

Enquanto conversamos aqui em Lisboa, um homem ao nosso lado critica a forma como a Igreja lida com os casos de pedofilia. Sente que a posi√ß√£o da Igreja neste flagelo pode comprometer o apoio a estas miss√Ķes?

Preocupam-nos muito estes problemas e sabemos que nem sempre h√° clareza no tratamento dos mesmos. Claro que tem impacto na Igreja e em como as pessoas veem a Igreja. Em muitos locais aquilo que √© o testemunho da Igreja √© um contra testemunho, e como padre entendo que h√° situa√ß√Ķes que temos de mudar, assumir os nossos erros. Naturalmente que pode afetar, mas o que tenho sentido da parte das pessoas e dos benfeitores √© sobretudo a preocupa√ß√£o de aquilo que d√£o chegue efetivamente ao seu destino.

Mas at√© nestes √ļltimos dias j√° ouviu alguma vez um ‚Äún√£o ajudo enquanto a Igreja n√£o resolver este problema‚ÄĚ?

N√£o ouvi mas reconhe√ßo que √© algo que temos de fazer, n√£o por interesse, mas porque √© o que temos de fazer. Ao mesmo tempo, penso que √© preciso dizer que a Igreja √© feita de pessoas que erram, como em todas as dimens√Ķes. N√£o √© diz√™-lo para desculpar, mas temos de conseguir reabilitar as pessoas, seja quem for.

Quando o Papa Francisco esteve em Mo√ßambique em 2019, falou-se muito de √Āfrica ser o futuro da Igreja Cat√≥lica, onde o n√ļmero de cat√≥licos aumenta. O que sente de diferente em √Āfrica enquanto padre?

√Č uma Igreja nascente. A gente nunca sabe medir a f√©, mas √© uma f√© mais vivida, mais din√Ęmica, mais alegre. Tudo isto ser√° cultural mas √© muito vis√≠vel. Se entrarmos num n√≠vel mais profundo, as dificuldades s√£o iguais √†s nossas, como mudar comportamentos.

A sua f√© mudou em √Āfrica?

Não consigo muito bem explicar, mas parece que sabia ao que ia. Sempre cresci num ambiente religioso e a minha fé vem daí, vem do coração. Na minha formação como seminarista e padre já fui muito orientado para estes ambientes. Sofremos com o povo, mas isso reforça a nossa presença como sinal de esperança.

Mesmo perante as atrocidades?

N√£o coloco a quest√£o se Deus √© culpado pelo que se vive ali, encaro a minha presen√ßa como a de outros como forma de dar testemunho de Deus. Somos instrumentos de salva√ß√£o nas m√£os de Deus, n√£o somos salvadores. E quando as pessoas perguntam, onde estava Deus quando o povos sofre? Est√° na nossa presen√ßa, naquilo que fazemos, na nossa solidariedade. Da mesma forma que √© a nossa a√ß√£o que traz o conflito, a injusti√ßa, na √Ęnsia de querer tudo √† custa dos outros. O mal √© uma pergunta que vai permanecer sempre ‚Äď porqu√™? Acredito que h√° coisas que s√≥ conseguiremos responder na eternidade, mas h√° outras que conseguimos responder: o mal acontece quando eu quero ter tudo, quando eu passo indiferente a tudo, quando o poder se sobrep√Ķe √† partilha. E nisso o conflito em Mo√ßambique √© igual ao de todas as outras guerras.

L√°, que d√ļvidas de f√© partilham consigo?

As pessoas n√£o fazem essas perguntas de forma expl√≠cita, mas procuram respostas tal como aqui e a resposta tem de ser pelo testemunho. Dou o exemplo de uma senhora que nos ajudou no furac√£o Kenneth. N√£o era cat√≥lica, fomo-la convidando para as celebra√ß√Ķes e pediu para ser batizada. N√£o houve ali uma tentativa de convencer. Da mesma forma que √†s vezes as pessoas se afastam porque em algum momento do seu percurso algum erro foi cometido.

Tem planos para voltar para a Portugal?

No curto prazo n√£o. Sou mission√°rio da Boa Nova mas somos enviados pelas dioceses, no meu caso a diocese de Santar√©m. J√° n√£o foi uma vez nem duas vezes que o meu bispo daqui me tentou convencer a ficar c√°. N√£o descarto, estou convencido que mais tarde ou mais cedo ter√° de acontecer, mas penso que continuo a ser necess√°rio l√°. √Äs vezes uma pessoa tem ideia de que √© um trabalho para multid√Ķes, mas n√£o √© s√≥. Claro que temos projetos que chegam a muita gente: j√° conseguimos reabilitar tr√™s escolinhas, o pr√≥prio espa√ßo da Igreja est√° a ser reabilitado e isto s√£o coisas concretas que fazemos. Mas o processo passa muito pelo encontro pessoal e mais do que ser um processo para converter o outro ‚Äď e √†s vezes confunde-se converter com convencer ‚Äď, acho que o nosso papel tem ser mais ajudar cada um a encontrar o seu caminho, seja ele qual for.

E a√≠ quest√Ķes como o di√°logo entre religi√Ķes tornam-se naturais.

Sim, se vou para o di√°logo com um mu√ßulmano na perspetiva de que ele tem de ser crist√£o, j√° n√£o √© di√°logo. Talvez l√° tenha esta experi√™ncia de uma maneira mais forte, mas acho que mesmo na Europa talvez estejamos a viver um momento diferente na Igreja porque esquecemos esta dimens√£o do encontro pessoal, com o projeto de cada um. As coisas s√£o como s√£o, mas, como lhe dizia, ao domingo l√° fa√ßo uma celebra√ß√£o com 900 pessoas e depois vou a uma comunidade, estou com as pessoas. No primeiro domingo que aqui estive fiz cinco celebra√ß√Ķes, andei a correr de um lado para o outro e tem sido sistematicamente assim.

H√° menos padres, menos tempo.

Sim. Certamente que durante a semana haverá espaço para mais encontros, mas sinto que o espaço para o diálogo aqui é mais difícil, seja por esta pressão, seja pelo ritmo de vida das próprias pessoas que é diferente. Mas no meu entender o caminho passa por mais diálogo.

Voltar√° uma pessoa diferente?

Completamente. √Āfrica marca muito. O que noto mais √© como alguns problemas do quotidiano que aqui s√£o uma coisa de todo o tamanho e l√° acabam por ser irrelevantes.

Por exemplo?

Por exemplo a n√≠vel da Sa√ļde. Apesar das dificuldades, que tamb√©m as h√°, temos um Servi√ßo Nacional de Sa√ļde extraordin√°rio. Claro que sei que h√° listas de espera e coisas que correm mal, mas tive uma apendicite aguda em Pemba e o que me salvou foi conhecer um m√©dico cubano que me enviou para Maputo, tive de fazer duas horas e meia de avi√£o. E foi chegar e operar.

A maioria das pessoas com apendicite morre?

Quando recuperei e voltei a Pemba passado um m√™s e tal, o primeiro funeral que fiz foi uma pessoa que morreu com uma apendicite. A esperan√ßa de vida anda √† volta de 50 anos, h√° uma enorme mortalidade materna. H√° muita corrup√ß√£o at√© na Sa√ļde. Um dos h√°bitos que se instalou √© que a m√£e que vai para dar √† luz tem de ter uma nota enrolada na capulana porque a parteira vai l√° e se n√£o tiver essa nota n√£o aceita.

Nunca coloca as notas?

N√£o posso fazer isso, seria compactuar com esse sistema. E foi isso que nos levou a criar na par√≥quia uma equipa de sa√ļde. Por exemplo, quando entra uma pessoa no hospital que vai precisar de sangue, aqui os hospitais socorrem-se de bancos de sangue mas l√° as pessoas que v√£o dar sangue cobram valores elevados e isso est√° institu√≠do at√© entre os t√©cnicos. √Č muito comum uma pessoa pedir-me em meticais, 3 mil, 4 mil, que √© muito dinheiro l√°, para os ajudar nos hospitais. E o que digo √© n√£o vou dar o dinheiro, mas podemos ajudar. Cri√°mos esta equipa e no ano passado fizemos uma campanha e junt√°mos cerca de 50 pessoas que podem doar sangue e quando √© preciso ligamos aos dadores, que v√£o acompanhados por um dos nossos membros, certifica-se que o processo √© correto e que o sangue vai para aquele doente.

Mas, no dia a dia, como faz? No tr√Ęnsito, como dizia h√° pouco...

Fa√ßo o mesmo. J√° me aconteceu ser parado e aperceber-me que estava para ser multado. O pol√≠cia queria que pagasse sem dar o recibo. O que disse foi: ‚ÄúEu pago mas passe o recebido‚ÄĚ. Geralmente o que acontece nessas situa√ß√Ķes √© mandarem-nos embora.

Mas acredita que isso vai mudar alguma coisa?

√Č uma gota de √°gua no meio do oceano, n√£o se muda nada de um dia para o outro, mas √© a diferen√ßa entre colaborar com o sistema ou n√£o colaborar. E aqui √© a mesma coisa: queixamo-nos de tanta coisa, o que fazemos para mudar?

Às vezes porque é fácil, mais barato... 

Isso. Seguramente as coisas n√£o v√£o mudar rapidamente, se calhar n√£o mudar√£o nem na gera√ß√£o a seguir √† minha mas as sementes que podemos lan√ßar se calhar um dia poder√£o fazer fruto. E ali j√° me considero feliz se no meio de uma multid√£o um jovem ou uma jovem entender que pode ser diferente. N√£o criamos ilus√Ķes, sabemos que naquele contexto ser diferente pode fazer com que a pessoa seja caluniada, amea√ßada, posta de parte. Mas √© a diferen√ßa entre continuar a colaborar ou fazer a diferen√ßa. E √© assim que trabalho com os jovens e olhe que tenho a casa cheia de jovens, diariamente temos 20 jovens a trabalhar.

Imaginava-se ali?

Fiz o ensino profissional, tirei o curso de t√©cnico de inform√°tica de gest√£o. Fui professor, programador, trabalhei no ensino oito anos. Aos 28 √© que acabo por ir para o semin√°rio, sou aquilo a que se chama uma voca√ß√£o tardia. √Č sempre dif√≠cil explicar porqu√™. Tive um percurso sempre marcado pela f√© e conheci a Sociedade Mission√°ria da Boa Nova por interm√©dio de um amigo de inf√Ęncia, que hoje tamb√©m √© padre. Em crian√ßa, as pessoas diziam que eu teria jeito, que podia ser padre. Mas era duas coisas que eu sempre disse que nunca seria, padre e professor. Foi as duas coisas que fiz e foram acontecendo e sempre tive este fasc√≠nio por poder ir para √Āfrica.

Tinha alguma ligação familiar?

O meu pai esteve na guerra colonial mas pouco me contou. A guerra deixou marcas muito fortes em muita gente e suponho que ter√° sido por isso, porque esteve num dos s√≠tios mais fortes, tamb√©m em Cabo Delgado. Sabia que ele tinha estado l√° mas nunca houve uma partilha profunda sobre a experi√™ncia dele. Sempre disse que fosse para procurar uma voca√ß√£o diferente, seria para ser mission√°rio. Aqui tamb√©m se pode fazer a diferen√ßa, mas em √Āfrica sente-se talvez mais. Aquela ideia de me sentir mais √ļtil.

Descobriu-se uma pessoa mais corajosa ou n√£o gosta de o p√īr nesses termos?

Penso-o mais como desafio. N√£o vou dizer que o primeiro ano n√£o foi dif√≠cil, que foi, mas quando cheguei tive a sorte de ter outros na frente e a intelig√™ncia de tentar perceber como fazer as coisas. Um dos grandes erros que muitas vezes cometemos √© levar projetos pr√©-formatados, n√£o funciona. √Č preciso criar equipas e para ter equipas √© preciso encontrar pessoas dispon√≠veis.

Tem hoje uma ideia diferente do processo de descolonização e da responsabilidade portuguesa?

√Č uma opini√£o meramente pessoal, n√£o sei o que poderia ter sido evitado, mas que deixou uma ferida profunda, deixou, e isso dificulta-nos ainda hoje o trabalho a v√°rios n√≠veis. Penso que alguma coisa teria sido diferente se tiv√©ssemos tido mais abertura e intelig√™ncia na altura. Talvez n√£o tivesse causado nem tanto sofrimento ao povo nativo nem aos que tiveram de sair de l√° da forma violenta como sa√≠ram.

Mas sente uma necessidade de reparação?

Talvez, nunca pensei muito nisso formalmente, mas ao nível de solidariedade claramente. Foram cometidos erros, não há nada a fazer agora, mas precisamos de mais solidariedade entre povos. 

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