Jornal I ⸱ 12d atrás ⸱ Abrir

No livro que terminou durante a pandemia, o fundador da Microsoft propõe uma ideia radical para resolver a questão do sobreaquecimento do planeta: reduzir a zero as emissões de gases com efeito de estufa.


Acaba de sair em Portugal, quase ao mesmo tempo que no resto do mundo, com a chancela da Ideias de Ler (do grupo Porto Editora) um livro do líder tecnológico, magnate e filantropo norte-americano Bill Gates (nascido em 1955 em Seattle). O seu título é Como Evitar um Desastre Climático, esclarecendo o subtítulo ao que vem: As soluções que temos e as inovações necessárias. Já está a ser, no país e no mundo, um best-seller. 

Bastaria que o livro fosse de Bill Gates para atrair as atenções. A aura do autor está associada à sua extraordinária riqueza. Nas listas da revista Forbes ocupou a primeira posição de 2014 a 2017. Mais recentemente, nas listas de 2018 a 2020 passou para o segundo lugar, logo atrás de Jeff Bezos, o patrão da Amazon, em clara ascensão. Estima-se que a fortuna de Gates seja de mais de 130 mil milhões de dólares. A origem da maior parte desse dinheiro reside nos lucros da Microsoft, a maior e mais conhecida empresa de software do mundo. Bates fundou-a em 1975 com o seu amigo Paul Allen, entretanto já falecido, quando tinha apenas 19 anos (nessa altura abandonou os estudos que fazia na Universidade de Harvard: é um dos mais famosos drop-outs). Tudo começou com a escrita de programas para os primeiros computadores pessoais. Mas, pouco depois, os lucros explodiram. Primeiro com o sistema operativo MS-DOS e depois com o Windows a Microsoft surfou, a partir dos anos 80, a onda crescente dos computadores pessoais (eu estou a escrever usando o Word para o Windows). Com a empresa bem sucedida, abandonou o lugar de CEO da empresa em 2000 para se dedicar à Fundação Bill & Melinda Gates (Melinda é a esposa de Bill desde 1994), que então fundou, cujo objectivo é a melhoria dos cuidados de saúde e a redução da pobreza do mundo,  assim como a  promoção da educação e do acesso a tecnologias da informação nos Estados Unidos. Baseada em Seattle, é a maior fundação privada do mundo, com um património no valor de 47 mil milhões de dólares.

O novo livro de Gates é o seu terceiro em português. O primeiro foi Rumo ao Futuro (McGraw-Hill, 1995) e o segundo Negócios à Velocidade do Pensamento (Temas e Debates, 1999), ambos escritos no tempo em que presidia à Microsoft e ambos sobre informática. Mas agora Gates dedica-se às grandes causas do mundo, entre as quais a do combate às alterações climáticas. Tendo antevisto o aparecimento de uma pandemia numa TED Talk de 2015, tem-se preocupado também com a covid-19, mas sabe que a ameaça climática que paira sobre nós todos vai permanecer mesmo após termos ultrapassado a actual crise sanitária, com a vacinação maciça: é bem mais grave! Gates estudou o assunto ao longo de anos, conversou com muita gente sábia e fez até investimentos na área das energias renováveis: criou, com outros grandes empresários, a Breakthrough Energy, organização que trabalha em baterias, biocombustíveis e fusão nuclear, que foi anunciada por ocasião da Conferência das Nações Unidas de 2015, onde foi lançado o Tratado de Paris. Agora, durante a pandemia, terminou este novo livro. 

Qual é a ideia principal de Bill Gates para resolver a questão do sobreaquecimento do nosso planeta devido às emissões de gases com efeito de estufa como o dióxido de carbono? É uma ideia radical: reduzir essas emissões a zero. Logo na Introdução, o autor dirige-se ao leitor deste modo: “Existem dois números que precisa de conhecer acerca das alterações climáticas. O primeiro é 51 mil milhões. O outro é zero. Cinquenta e um mil milhões de toneladas é o total de emissões de gases com efeito de estufa que lançamos anualmente na atmosfera. (…) É aqui que estamos se nada for feito. Zero é o valor que temos de atingir” [itálicos no original]. Para isso, Gates é claro: “Significa que cada um de nós, em todos os países, vai ter de alterar a sua forma de viver.” Gates é um optimista, com uma confiança alicerçada na tecnologia : “Acredito que as coisas podem mudar. Já dispomos de algumas ferramentas necessárias para uma mudança de rumo, e quanto às que não possuímos, o que aprendi sobre clima e tecnologia permite-me acreditar que seremos capazes de as inventar e aplicá-las no terreno, evitando, assim, se não perdemos mais tempo, um desastre climático.” Resume a seguir a obra: “Este livro é sobre o que será necessário colocar em prática, e porque penso que seremos capazes de o fazer.” 

Ainda na Introdução, ao mostrar com um gráfico a correlação entre o consumo energético por pessoa e o rendimento médio também por pessoa, transmite uma dificuldade maior que o processo de redução de emissões tem de enfrentar: os países menos desenvolvidos, que naturalmente querem desenvolver-se, tenderão nesse processo a gastar mais energia, sendo muito difícil, senão mesmo impossível, que os outros os impeçam. A questão está pois em gerar mais energia, que hoje é necessária para tudo e para todos, desde as fábricas aos transportes, mas com menos emissões de dióxido de carbono. Não são só os países ricos que têm de usar energias alternativas, como já começaram a fazer: são também os países pobres. Para que a economia destes possa crescer, é preciso que tenham acesso barato a energias não poluentes. Quando falamos de energias alternativas, pensamos logos nas soluções eólica e solar. Mas estas, segundo Gates, não chegam, pois dependem dos caprichos da meteorologia e não são fáceis de armazenar. Portanto, são necessárias novas soluções tecnológicas. 

A inovação vai ser, para Gates, a salvação. De facto, ela já tem salvo o mundo da concretização de muitos anúncios de alguns profetas da desgraça. Quando alguns disseram que os recursos minerais se iam esgotar, novas formas de extracção e novos materiais logo vieram afastar o espectro da escassez. A solução, no presente caso da energia, passará pelo desenvolvimento de tecnologias já conhecidas e pela criação de outras. Entrando num tema controverso, Gates defende o uso da energia nuclear, devido às suas baixas emissões de dióxido de carbono e também à estabilidade da sua produção energética. Ele próprio fez investimentos pessoais nessa área, enquanto desfazia os seus investimentos em áreas poluentes. Aos que referem a falta de segurança, diz que a energia nuclear mata muito menos que os automóveis, facto que ninguém poderá desmentir. Refere também a energia nuclear de fusão, que neste momento é uma tecnologia bastante embrionária: o reactor internacional de fusão perto de Marselha, em França, é um projecto muito exploratório.

O pensamento de Bill Gates sobre a ameaça climática encontra-se alicerçado em vários factos que ele nos apresenta, num resumo que é muito útil para quem queira ter uma percepção racional do problema. No final do livro, escreve: “Tenho esperança de que possamos contribuir para a solução, partilhando os factos com as pessoas que fazem parte das nossas vidas, os nossos familiares, amigos e líderes E não apenas os factos que nos avisam de que temos de agir agora, mas também aqueles que apontam as acções que têm maior efeito na resolução do problema”. O livro convoca-nos a todos para uma discussão e uma acção que são reconhecidamente urgentes. 

Gates sabe que vai ser criticado por algumas das opiniões que expressa no livro e antecipa no início da sua obra as eventuais acusações: “Não posso negar que sou um tipo rico com uma opinião. Acredito, porém, que se trata de uma opinião informada e estou sempre a tentar aprender mais. (…) Também sou um apaixonado por tecnologia. Apresentem-me um problema e sou o primeiro a procurar uma solução tecnológica para o resolver (…) Por fim, é verdade que a minha pegada ecológica é absurdamente elevada. É algo que pesa na minha consciência desde há muito tempo.” Elenca a seguir os esforços que tem feito no sentido de reduzir ou, pelo menos, compensar a sua pegada. No final, diz aos seus opositores: “Quanto às ideias de que discorda, pode sentir vontade de manifestar o seu desacordo, e isso é compreensível. Porém, gostava, que gastasse mais tempo e energia a apoiar aquilo em que acredita do que a lutar contra aquilo em que não acredita.”

O livro, com 287 páginas, incluindo no final um útil índice remissivo, está organizado em doze capítulos, escritos de forma assaz pedagógica: o autor sugere medidas individuais, empresariais e governamentais para reduzir as emissões. Entre as medidas para o consumidor encontram-se: “compre um veículo eléctrico” e “experimente comer um hambúrguer vegetariano”. Gostei de o ler (já tinha ouvido Gates numa das visitas que fez a Portugal, e pareceu-me uma pessoa sábia e comedida). A obra termina com um posfácio sobre as alterações climáticas e a covid-19, escrito em Novembro de 2020, por altura da eleição de Joe Biden, com quem quer colaborar na prevenção das alterações climáticas (um tweet de Bill Gates no dia da tomada de posse de Biden foi muito claro quanto à esperança de um futuro diferentes dos Estados Unidos, de volta ao Tratado de Paris). De facto, devido ao abrandamento económico provocado pela pandemia, o número inicial de 51 mil milhões de toneladas de gases com efeito de estufa pode hoje pecar por excesso, sendo plausível uma diminuição de entre 5 a 10 por cento. O caminho a percorrer será, contudo, ainda muito longo. Num mundo onde as perspectivas são escuras em relação ao clima, Gates traz-nos a boa notícia de que há luz ao fundo do túnel.