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¬ęNuma manh√£ de 1715, em pleno Mar das Cara√≠bas...¬Ľ A voz do narrador neste recitativo da vinheta inicial de Barba Ruiva ‚Äď O Dem√≥nio das Cara√≠bas introduz o tempo e o espa√ßo da ac√ß√£o, encimando a imagem de um gale√£o espanhol em √°guas ainda alterosas ap√≥s a passagem de um tornado. √Č um hist√≥ria de bucaneiros, ainda na idade de ouro da pirataria.


A Europa guerreava-se, no continente e nas possess√Ķes ultramarinas; e at√© a R√ļssia, que emerge como grande pot√™ncia neste per√≠odo, impor a doutrina da neutralidade armada, a que Portugal adere, o Atl√Ęntico era uma balb√ļrdia: o imp√©rio luso aos bocados, os espanh√≥is, passado o Siglo de Oro, tornavam-se presas mais ou menos dif√≠ceis para ingleses e franceses, quem realmente mandava no Ocidente, com os holandeses pelos interst√≠cios a abocanhar os restos. Pelo meio, aproveitando-se da confus√£o, com bases naturais nos arquip√©lagos das Antilhas, uma chusma fora da lei com a cabe√ßa a pr√©mio, aventureiros, renegados, fugitivos, desertores, revoltados, interceptava os barcos que cruzavam o oceano,

Em 1959, com a criação da revista Pilote, a dupla Jean-Michel Charlier (1924-1989) e Victor Hubinon (1924-1979) há muito que desenvolvia uma profícua colaboração no semanário Spirou: Buck Danny, o ás da aviação surgido em 1947 e que ainda hoje se publica, é a criação mais bem sucedida desse período; uma outra, sobre o corsário Surcouf (1773-1827), permitiu que reunissem uma vasta documentação para empreenderem uma sólida série de flibusteiros. Nasceu assim o pirata Barba Ruiva, comandante audaz, talentoso e cruel, que não fazia prisioneiros.

O gale√£o que avist√°mos na primeira vinheta ser√° presa dos piratas do ‚ÄúFalc√£o Negro‚ÄĚ, assim se nomeava o brigue, navio r√°pido de dois mastros, com seis a dez canh√Ķes, apropriado tanto para a abordagem aos pesados navios mercantes, como retiradas bruscas para dentro do arquip√©lago caribenho, em caso de persegui√ß√£o de navios de armada hostil. A bordo do barco espanhol seguia um casal com um filho de tenra idade, que n√£o tardar√° em ficar √≥rf√£o, ou quase, uma vez que o pirata o adoptar√°. Eric Lerouge, assim vai chamar-se, ser√° instru√≠do por um velho pirata culto e perneta, Tr√™s-Patas, e por Bab√°, um homenzarr√£o negro, ex-escravo libertado por Barba Ruiva. E aqui o leitor j√° estar√° a vislumbrar a imagem dos desastrados piratas de Ast√©rix, que pela difus√£o mundial que conhece o gaul√™s, tornou a par√≥dia mais c√©lebre que o original...

Charlier assimilou muito bem o esp√≠rito insurrecto e comunit√°rio da pirataria, que conjugava disciplina f√©rrea e desbragamento selvagem; Hubinon, que era uma m√°quina a desenhar avi√Ķes e coura√ßados, continuou ex√≠mio com os veleiros, perseguindo-se nesse mar sem lei. Tendo passado por v√°rios autores, a s√©rie continua a publicar-se na mesma editora, a Dargaud.

Barba Ruiva - O Demónio das Caraíbas

Texto Jean-Michel Charlier
Desenho Victor Hubinon
Editora Meribérica / Liber, Lisboa, s.d.

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