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Obras de duas dezenas de artistas "que se destacam pela construção de mundos imaginários", como Ana Jota, Susanne Themlitz e Gonçalo Barreiros, foram selecionadas para a exposição "O Pequeno Mundo", que abre ao público sábado, na Culturgest, em Lisboa.


Com a curadoria de Sérgio Mah, a mostra reúne mais de 70 trabalhos de pintura, desenho, escultura, instalação e fotografia de 24 artistas representados na coleção da Caixa Geral de Depósitos (CGD), entre os quais figuras de primeiro plano da arte portuguesa das últimas décadas, como Álvaro Lapa, Ana Hatherly, Ângelo de Sousa e Jorge Molder.

"Há artistas que se destacam pela forma como constroem mundos imaginários, ou paralelos da realidade", disse Sérgio Mah, durante uma visita guiada, aos jornalistas, pelo percurso da exposição, que ocupa três salas e um corredor, repletos de História da arte portuguesa, embora sem uma sequência cronológica ou núcleos de artistas.

A escolha das obras - notou o curador - acabou por recair na "idiossincrasia, na maneira como os artistas usam certos meios e técnicas discursivas", para criar mundos imaginários, "peculiares, `entre-mundos`, `quase-mundos`, mundos paralelos, alternativos e projetivos que interpelam as realidades vividas".

"A contrário de outros mundos, na arte, o erro, a dissimulação, o jogo, são muito importantes", apontou, sobre o conteúdo de uma exposição que já foi apresentada em Chaves, no ano passado, no Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso (MACNA), mas que, devido ao contexto da pandemia, teve muitos poucos visitantes, apresentando-se agora em Lisboa, segundo a organização.

Este projeto, iniciado em 2019, surge no contexto da descentralização de exposições da Coleção de Arte da CGD que a Culturgest tem vindo a realizar por todo o país, e que, para o momento atual, convidou o curador Sérgio Mah e o artista Gonçalo Barreiros, a criar novas peças para serem expostas no percurso.

Na primeira sala, a par de desenhos de Pedro Sousa Vieira e uma pintura de Ana Hatherly, está instalada a escultura de Gonçalo Barreiros, "Grains of Space", criada em alumínio e ferro pintado, constituída por várias peças com aspeto atmosférico, e formas semelhantes a nuvens.

"Parecem nuvens, parecem ondas, mas não posso dizer ao certo. Para mim são uma espécie de partes de nuvens. Quando crio, não há um desenho prévio nem uma intenção. Ao contrário de um cientista, eu gosto das coisas que não controlo", comentou o artista, acrescentando que desconhecia o que iria surgir no processo de criação.

Além desta peça, Barreiros apresenta uma outra, no centro da segunda sala da exposição, feita em ferro pintado, que consiste num conjunto de bidões de vários tamanhos, como que "amarrotados na cintura".

"É um objeto da vida real sobre o qual tenho algum fascínio. Gosto de reinventar um objeto real, reconstruí-lo, e aqui dou uma ideia de aperto", explicou o artista à Lusa sobre a obra, que, em conjunto com a anterior, criou nos dois últimos anos para este projeto.

Na segunda sala, surgem "outros dilemas, problemas e questões" abordados por diversos artistas, como António Sena, com trabalhos sobre a escrita, Jorge Pinheiro, Ana Jotta - artista com uma presença expressiva nesta exposição - pinturas de Hugo Canoilas e Ângelo de Sousa, desenhos de Rui Sanches, e obras de Pedro Sousa Vieira que abordam a criação de espaços arquitetónicos.

Obras de Lourdes Castro, com objetos do quotidiano, pinturas de Joaquim Rodrigo e de Julião Sarmento, uma escultura de José Pedro Croft, uma fotografia de Jorge Molder, juntam-se na terceira e última sala para atestar a capacidade dos artistas em "criar estranheza e inventar mundos alternativos", apontou Sérgio Mah.

Essa capacidade inventiva que fascinou o curador encerra a exposição numa instalação de Susanne Themlitz, que oferece ao visitante "um mundo grotesco, com corpos e cenários desconcertantes", num conjunto de figuras que aparentam nascer em molduras inacabadas feitas em barro.

Na extensa instalação que ocupa quase todo o corredor, intitulada "Solitários, Carrancudos e Ensimesmados", cabem pequenos seres disformes que "parecem nascer do barro, de um mundo em transformação, e querem falar".

A exposição termina com duas obras de Ana Jotta, de 1988, intituladas "On peut" e "On peut encore", com textos em francês sobre aquilo que, segundo a artista, se "pode" e "ainda se pode" fazer.

A exposição "O Pequeno Mundo" pode ser visitada até 31 de dezembro na Culturgest, em Lisboa.