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O mundo não está a conseguir abrandar a destruição da natureza. Um novo relatório das Nações Unidas revela que, na última década, a humanidade não conseguiu cumprir nenhuma das Metas da Biodiversidade de Aichi, definidas em 2010 no Japão, para proteger a biodiversidade e a vida selvagem. A humanidade está "numa encruzilhada", adverte a ONU.


Embora haja um progresso encorajador em várias áreas, a natureza continua a sofrer e a ser destruída a uma velocidade sem precedentes. O alerta é da ONU, que apela a mudanças transformadoras necessárias e urgentes para salvar o planeta, mas também para garantir a segurança e o bem-estar do ser humano.

O Global Biodiversity Outlook 5 (GBO-5), publicado esta terça-feira pela Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (CBD), revela que a comunidade internacional não está a conseguir impedir a destruição da natureza e, nos últimos dez anos, falhou no objetivo de proteger e preservar o planeta.

"A biodiversidade está a diminuir a uma velocidade sem precedentes e as causas desse declínio estão a intensificar-se", lê-se no documento.

A destruição da biodiversidade não é apenas a ameaça de extinção das espécies, é também uma ameaça à segurança, saúde e abastecimento de alimentos da humanidade.

"A humanidade está numa encruzilhada quanto ao legado que vai deixar às gerações futuras".

Mas, apesar dos compromissos assumidos em 2010, a comunidade internacional não está perto de conseguir cumprir as metas para impedir a crise ambiental, que continua a piorar por causa da agricultura insustentável, da pesca excessiva, da queima de combustíveis fósseis e de muitas outras atividades humanas.

"Nenhuma das Metas de Biodiversidade de Aichi será totalmente alcançada, o que, por sua vez, ameaça o cumprimento das Metas de Desenvolvimento Sustentável e prejudica os esforços para enfrentar as alterações climáticas", referem os autores.

De facto, desde a diminuição da poluição à proteção de ecossistemas selvagens, a humanidade não conseguiu alcançar totalmente nenhuma das 20 metas definidas para o prazo de dez anos (até 2020). Apenas seis das 20 metas mundiais foram "parcialmente alcançadas" até agora.

O relatório surge numa altura em que o mundo enfrenta a pandemia da Covid-19 e começa a refletir sobre a relação da humanidade com a natureza e as consequências da destruição de ecossistemas selvagens para a vida humana.

"A pandemia da Covid-19 destacou ainda mais a importância da relação entre as pessoas e a natureza e lembra-nos quais as consequências para o nosso próprio bem-estar e sobrevivência com a perda contínua de diversidade, a degradação biológica e de ecossistemas".

"À medida que a natureza se degrada", explicou Elizabeth Maruma Mrema, "surgem novas oportunidades para a disseminação de doenças devastadoras para os humanos e os animais, como o novo coronavírus este ano. A janela de tempo disponível é curta, mas a pandemia também demonstrou que mudanças transformadoras são possíveis quando devem ser feitas".

Alguns progressos, não os suficientes

O relatório analisou uma década de esforços dos governos mundiais para o abrandamento da destruição da natureza. Em 2010, quase todos os países do mundo concordaram e assinaram as 20 metas da convenção para tentar travar o colapso da biodiversidade.

E embora apenas seis dessas metas tenham sido "parcialmente" cumpridas, houve alguns progressos. Pelo menos 44 por cento das áreas de biodiversidade vital são, atualmente, consideradas áreas protegidas - um aumento de 29 por cento face ao ano 2000.

"Algum progresso foi conseguido, mas não é bom o suficiente", escreveu no relatório Elizabeth Maruma Mrema, líder da convenção da ONU.

"Os sistemas vivos da Terra como um todo estão a ser comprometidos. E quanto mais a humanidade explora a natureza de maneiras insustentáveis ​​e prejudica as suas contribuições para as pessoas, mais prejudicamos o nosso próprio bem-estar, segurança e prosperidade", acrescentou.

Segundo o relatório, a destruição de habitats como florestas, pântanos e pastagens não diminuiu nem metade, a pesca intensiva não foi reduzida e os governos não deixaram de subsidiar combustíveis fósseis, fertilizantes e pesticidas que estão a contribuir para o declínio da biodiversidade.

A ONU estima que os governos mundiais tenham gastado 500 mil milhões de dólares por ano em iniciativas ambientalmente prejudiciais. No entanto, o financiamento público e privado total destinando a inciativas ambientais e de prteção da biodiversidade é de apenas 80 ou 90 mil milhões de dólares.

"Ainda vemos muito mais dinheiro público investido em coisas que prejudicam a biodiversidade do que em coisas que apoiam a biodiversidade", escreveu David Cooper, um do autores.

Também as metas relativas à diminuição da poluição por resíduos de plástico e nutrientes em excesso não foram alcançadas. Cerca de 260 mil toneladas de partículas de plástico acumularam-se nos oceanos com graves impactos nos ecossistemas marinhos, muitas vezes com implicações desconhecidas.

Além disso, mais de 60 por cento dos recifes de coral do mundo estão sob ameaça, especialmente por causa da pesca intensiva e práticas destrutivas e, com a crise climática, a acidificação dos oceanos e o desenvolvimento costeiro têm acelerado a destruição destas espécies.

Apesar do fracasso geral, o relatório destaca áreas de progresso que provam que os seres humanos têm o poder de proteger e restaurar a natureza e não apenas destruí-la. A verdade é que, os esforços de conservação evitaram cerca de 48 extinções de pássaros e mamíferos na última década e sem essas ações, segundo os autores, o número de extinções provavelmente teria sido duas a quatro vezes maior.

Novas ações e transformações são urgentes

A escala da crise ambiental e o tamanho da população mundial provam, esclarece a ONU, que a conservação por si só não será suficiente para preservar a natureza. O relatório refere que as sociedades terão de transformar a forma como produzem e consomem alimentos e outros bens.

Sem uma mudança transformacional, lê-se no relatório, toda a humanidade será afetada, com os povos indígenas e os pobres a sofrer os piores efeitos.

Os cientistas dizem que o abastecimento de alimentos está ameaçado pelo colapso dos ecossistemas, alterações climáticas, declínio dos animais polinizadores e pela degradação do solo devido à agricultura insustentável.

"As decisões e o nível de ação que tomamos agora terão profundas consequências - para o bem ou para o mal - para todas as espécies, incluindo a nossa", salienta o documento da ONU.

Este documento final sobre o progresso em relação às 20 metas globais de biodiversidade acordadas em 2010 com um prazo de 2020, apresenta também as lições aprendidas e algumas das melhores práticas para entrar no caminho certo.

O relatório apela para oito transições urgentes que reconhecem o valor da biodiversidade, a necessidade de restaurar os ecossistemas dos quais depende toda a atividade humana e a urgência de reduzir os impactos negativos dessa atividade: na forma como usamos a terra e os oceanos, como cultivamos e produzimos os nossos alimentos, o que comemos, como construímos as cidades, ou como administramos a água potável.

Por exemplo, os humanos deviam comer menos carne e peixe e parar rapidamente de queimar combustíveis fósseis, explica a ONU.

Com essas mudanças, talvez não seja tarde demais para desacelerar e, em última instância, reverter esta crise, concluiu o relatório.

"Ainda precisamos deste planeta para viver", escreveu Mrema. "E ainda precisamos deste planeta para os nossos filhos".