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O espet√°culo 'Sou uma √≥pera, um tumulto, uma amea√ßa', encenado por Cristina Carvalhal, que se estreia na quarta-feira no Teatro S√£o Luiz, √© uma esp√©cie de "instala√ß√£o pl√°stica", com vozes, som, m√ļsica e v√≠deo a sobreporem-se num "caos organizado".


Baseado no romance 'O Mundo Ardente', da escritora norte-americana Siri Hustvedt, esta é a história de uma escritora e artista plástica obcecada pelo funcionamento da mente consciente, uma mulher branca, privilegiada, de um estatuto social elevado financeiramente, também muito desafogado, mas que apesar de tudo recorre a um estratagema louco para existir, para ter um lugar de fala no mundo das artes, explicou à Lusa a encenadora.

"Isto levou a desenvolver, na adaptação, um lado sobre o funcionamento da mente, sobre o que é a construção da realidade, como cada um de nós constrói a realidade a partir daquilo que vê, de que forma os nossos preconceitos e expectativas determinam aquilo a que chamamos de realidade, acrescentou.

Foi assim que nasceu esta "espécie de brincadeira" à volta da construção da mente de uma escritora a contar a história de uma artista plástica, que por sua vez se revê numa outra mulher apagada pela historia, Margaret Cavendish, uma filósofa natural, que seria uma cientista hoje, interessada pelas mais diversas áreas, desde a literatura à arte, passando pela ciência, e que, "no século XVII, ainda tinha mais dificuldades em existir e dialogar as suas ideias, onde também nós nos espelhamos hoje, porque esse preconceito e desigualdade de género continuam a existir".

No livro 'O mundo ardente', personagem da artista pl√°stica, sistematicamente menosprezada pelo meio intelectual nova-iorquino, decide levar a cabo uma experi√™ncia a que chama 'M√°scaras' e que consiste em esconder-se por detr√°s de tr√™s identidades masculinas - tr√™s artistas que assumem a autoria do seu trabalho e o exp√Ķem -, para revelar os preconceitos que imperam no mundo das artes.

Nas palavras de Cristina Carvalhal, este romance não tem a "forma habitual de romance, é organizado por uma série de testemunhos, entrevistas, recolha de artigos, como se houvesse outra caixa dentro desta caixa de contar de uma história, e cada leitor vai construir uma história a partir de organizar toda essa informação, como se a tivesse recolhido de vários cadernos".

"Isso lan√ßou esta ideia de adapta√ß√£o para uma coisa de m√ļltiplas vozes a falar, uma esp√©cie de coro que rapidamente se tornou como se fossem as diferentes vozes que habitam a nossa cabe√ßa, ou diferentes linhas de pensamento que nos ocorrem simultaneamente quando pensamos, ou seja, sobre o funcionamento da mente tamb√©m".

Esse √© o √Ęmago do espet√°culo, mas foi tamb√©m a principal dificuldade em mont√°-lo -- admitiu -, porque ao propor-se reproduzir, "como se fosse poss√≠vel", o interior de uma cabe√ßa a funcionar, desde logo surge a ideia da "simultaneidade de pensamentos, de as coisas acontecerem em rede a uma velocidade alucinante, e, com isso, a d√ļvida: "Como √© que se traduz a simultaneidade de coisas a acontecer?".

Foi isso que a levou a "brincar com vozes e outras camadas de informa√ß√£o, como som, m√ļsica, v√≠deo", criando esta ideia de "caos organizado".

O espet√°culo, que come√ßa com a visualiza√ß√£o do poema escrito 'The Dying need but little, Dear', de Emily Dickinson, prossegue com apenas quatro mulheres em palco, que contam uma hist√≥ria, combinando falas alternadas e sobrepostas, sem nunca causar ru√≠do, que se combinam com m√ļsica e com outros sons -- uma fita adesiva que se descola, murros num saco de boxe, o bater nas teclas do piano, papeis a serem amachucados -, numa harmonia de coreografia.

Paralelamente v√£o sendo exibidos v√≠deos atrav√©s de uma c√Ęmara que filma alguns detalhes do que se passa em cima do palco.

"No fundo, é a simultaneidade de uma série de linhas de informação a correr ao mesmo tempo, mas que de alguma forma também se relacionem e sejam capazes de, apesar de às vezes poderem ser ilógicas, poderem todas concorrer para serem lidas de outra forma mais tarde, para as pessoas poderem organizar isso mais tarde, quando se começa a dar sentido aos vários elementos ali presentes", explicou.

Tudo isto, "num universo montado em forma de uma instalação plástica, porque se trata da história de uma artista plástica, portanto, o cenário remete um bocadinho para esse universo da instalação plástica, onde também se justifica a videoarte, o som, a palavra, também escrita, enquanto uma coisa plástica um corpo existente ali", justificou.

"Sou uma √≥pera, um tumulto, uma amea√ßa", conta com as interpreta√ß√Ķes de In√™s Rosado, Manuela Couto, Rosinda Costa e S√≠lvia Filipe, e vai estar em cena na sala M√°rio Viegas, do S√£o Luiz Teatro Municipal, em Lisboa, at√© ao dia 10 de outubro.

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