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A Organização Internacional para as Migrações (OIM) alertou hoje que o mundo deve preparar-se para a possibilidade de uma crise humanitária "prolongada" em Moçambique, devido ao aumento de pessoas deslocadas pela "contínua" violência armada na região norte.


"A situação, definitivamente, é uma crise prolongada e está a tornar-se mais isso. Esperamos ver mais um aumento de deslocados, nos próximos dias e semanas", disse a chefe de missão da OIM em Moçambique, Laura Tomm Donde.

As autoridades moçambicanas, sociedade civil e a comunidade internacional devem estar preparadas para operações de assistência humanitária mais crescentes, afirmou Donde.

"Certamente, será algo para o qual temos que nos preparar, um aumento nos deslocados. Esperamos que nãos seja o caso, mas, infelizmente, tudo aponta para essa direção", enfatizou a responsável pela agência da Organização das Nações Unidas (ONU) em Maputo.

A OIM, prosseguiu, registou a chegada de mais de oito mil deslocados de Palma em vários pontos de acolhimento na última semana, depois dos ataques armados do dia 24 à vila e milhares estarão refugiados nas matas em vários pontos da província de Cabo Delgado, podendo dar entrada em locais de acolhimento seguro nos próximos dias.

A estes novos números, acrescentam-se os anteriores 670 mil deslocados pela violência armada na província e que são parte de um total de 1,3 milhões de pessoas que a ONU estimava precisarem de assistência humanitária em toda a região norte, por terem sido deixados numa situação de necessidade de ajuda pelo efeito combinado da violência e desastres naturais.

"Antes destes ataques [a Palma], já havia uma grande necessidade de assistência em Cabo Delgado e noutras províncias do norte", enfatizou.

O Plano de Resposta Humanitária das Nações Unidas avaliou em março as necessidades de assistência em 254 milhões de dólares e apenas um terço desse montante foi angariado, de acordo com informações na altura avançadas pela ONU.

"Palma exacerbou as necessidades para uma escala ainda mais larga", frisou Laura Tomm Donde.

A responsável apontou que os deslocados, sobretudo os de Palma, precisam urgentemente de comida, água potável, assistência médica e psicossocial.

As crianças e mulheres são os grupos mais expostos às vulnerabilidades provocadas pelos efeitos conjugados da guerra e dos desastres naturais no norte de Moçambique, por serem a maioria e os mais frágeis.

Os deslocados não são os únicos que precisam de ajuda, as famílias que acolhem a maioria das vítimas da guerra em Cabo Delgado também precisam de apoio, porque já viviam numa situação de pobreza e de escassez, observou a chefe de missão da OIM.

"É uma generosidade extraordinária [das famílias de acolhimento], porque estas famílias já estavam no limite. Estas famílias de acolhimento também precisam de ajuda", frisou.

Situação mais grave passam milhares de pessoas que fugiram de Palma e que estão escondidas na floresta, porque nenhum tipo de ajuda pode chegar a esses refúgios, devido à falta de segurança, notou.

À crise provocada pelos ataques armados e desastres naturais junta-se o drama da pandemia de covid-19, porque "os que fogem da guerra não se lembram de levar a máscara", sublinhou Tomm Donde.

Toda a comunidade ligada à assistência humanitária, continuou, deve colocar e manter a crise que se vive no norte de Moçambique no "mapa" mundial das necessidades de apoio humanitário, tendo em conta que a situação concorre com os dramas que estão a ser provocados por conflitos como os do Iémen e Síria.

"Há, obviamente, outras crises globais que tendem a estar mais nos radares da comunidade internacional, incluindo Iémen e Síria", destacou.

A crise humanitária em Moçambique precisa de ser colocada nas "plataformas globais" visando ganhar uma maior visibilidade, enfatizou.

A província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, é desde há cerca de três anos alvo de ataques terroristas e o mais recente aconteceu em 24 de março, em Palma, em que dezenas de civis foram mortos, segundo o Ministério da Defesa moçambicano.

A violência está a provocar uma crise humanitária com quase 700 mil deslocados, segundo agências da ONU, e mais de duas mil mortes, segundo uma contabilidade feita pela Lusa.

O movimento terrorista Estado Islâmico reivindicou na segunda-feira o controlo da vila de Palma, junto à fronteira com a Tanzânia.

Vários países têm oferecido apoio militar no terreno a Maputo para combater estes insurgentes, mas, até ao momento, ainda não existiu abertura para isso, embora haja relatos e testemunhos que apontam para a existência de empresas de segurança e de mercenários na zona.