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Nomadland foi um dos grandes vencedores da noite, posicionando-se, assim como a sua realizadora, entre os favoritos para os Óscares.


Com Nomadland (2020), longa-metragem que este domingo conquistou o prémio de melhor filme nos Globos de Ouro, Chloé Zhao tornou-se a segunda mulher a vencer na categoria de melhor realizadora.

Nascida e criada em Pequim, capital da China, mudou-se para Los Angeles para acabar o liceu. Mais tarde, tirou um curso de Ciência Política, mas “sentia-se mais atraída por pessoas do que por política”, confessou à revista Vulture. Começou a estudar cinema na Universidade de Nova Iorque e, desde então, tornou-se uma das cineastas mais atentas ao íntimo das comunidades esquecidas dos Estados Unidas.

Em Nomadland embarcamos numa viagem ao não muito distante ano de 2008 e a um país devastado pela crise económica. Somos apresentados a uma geração de americanos que, reduzidos à pobreza e sem capacidade para se reformarem, são obrigados a tornar-se nómadas e a procurar empregos precários que lhes permitam sobreviver.

Não é a primeira excursão de Zhao pelo verdadeiro coração da América. A sua primeira longa-metragem, Songs My Brothers Taught Me (2015) gira em torno de uma família de nativos americanos e The Rider (2017), que teve a sua estreia no Festival de cinema de Cannes, é um western contemporâneo sobre um cowboy que sofre uma grave lesão depois de um acidente a andar de cavalo.

A sua filmografia é uma meditação sobre pessoas que foram abandonadas pela América. Mas a realizadora não tem uma abordagem sentimental: Zhao quer contar histórias reais de pessoas reais, e, para isso, utiliza nos seus filmes atores não profissionais, recrutados nas comunidades que vai filmar.

“Quando vou a comunidades às quais não pertenço ou que têm muitos problemas, tenho que resistir à vontade de dizer o que poderiam tentar fazer para melhorar a sua vida ou como acho que o governo está a enganá-los”, disse Zhao numa entrevista com o realizador Alfredo Cuarón.

Talvez seja por isso que, na hora de fazer o discurso de agradecimento, tenha dedicado o filme protagonizado por Frances McDormand (que esteve nomeada na categoria de Mehor Atriz) “a todos os nómadas que decidiram partilhar a sua história connosco”, aproveitando para destacar Bob Wells, um nómada “na vida real” que serviu como ator não profissional em Nomadland. “A compaixão é o que quebra todas as barreiras entre nós. Um coração que bate forte. A tua dor é a minha dor. É uma mistura partilhada por todos nós”, disse Zhao, através do Zoom.

Com esta vitória, Nomadland torna-se um dos favoritos aos Óscares. A realizadora, cujo próximo filme será o blockbuster da Marvel The Eternals, pode vir a tornar-se na segunda mulher a vencer prémio.

 

Vitória da Netflix e de… Rudy Giulliani

A 78.ª edição dos Globos de Ouro, que decorreu de forma virtual devido à pandemia da covid-19, teve na distinção a título póstumo de Chadwick Boseman como melhor ator dramático pela sua performance no filme Ma Rainey: a mãe do blues, de George C. Wolfe, um dos pontos altos.

Este foi apenas um dos diversos prémios entregues a produções da plataforma de streaming Netflix, a grande vencedora da noite, que viu serem distinguidos os filmes I Care a Lot (Rosamund Pike como melhor atriz num filme de comédia) e The Trial of the Chicago 7 (melhor argumento pelo trabalho de Aaron Sorkin) e as séries Gambito de Dama (melhor minissérie e o prémio de melhor atriz para Anya Taylor-Joy) e The Crown (Melhor Série dramática e Melhor Ator, Atriz e Atriz secundária, entregues, respetivamente, a Emma Corrin, Josh O’Connor e Gillian Anderson).

No campo da comédia, e da plataforma rival, Amazon, quem sorriu foi Sacha Baron Cohen, que interpreta o controverso e inconfundível Borat, que viu a sequela, Borat Subsequent Moviefilm, sobre o jornalista do Cazaquistão a ser considerado o melhor filme de comédia do ano e a receber o prémio de melhor ator num filme de comédia.

No discurso de agradecimento, elogiou os talentos de outro ator desta sequela, “um novo talento” e um “génio da comédia”… Rudy Giuliani, ex-mayor de Nova Iorque e advogado de Donald Trump, que surge numa das cenas mais controversas do filme, onde aparentemente parece estar a masturbar-se ao lado da atriz Maria Bakalova, de 24 anos, mas que no filme interpreta o papel de Tutar, filha de Borat, com 15 anos.

O ator Daniel Kaluuya, que já tinha sido nomeado para o Óscar de melhor ator principal, em 2017, pelo seu desempenho no filme Get Out, foi destacado como o melhor ator secundário em Judas and the Black Messiah, onde interpreta o papel de Fred Hampton, ativista e revolucionário afro-americano, presidente da filial de Illinois do Partido dos Panteras Negras.

O momento de felicidade para o ator teve, porém, uma falsa partida: contactado, via Zoom, para fazer o seu discurso de agradecimento, Daniel Kaluuya não conseguia fazer-se ouvir. A cerimónia já vinha sendo criticada pela falta de diversidade racial entre os nomeados, pelo que o incidente fez com as críticas aos Globos de Ouro começassem a chover nas redes sociais.