Rtp ⸱ 9 meses atrás ⸱ Abrir

A França e cinco países da região do Sahel (G5 Sahel) manifestaram hoje o "apoio ao processo de transição civil-militar" no Chade, a ser conduzido pelo filho do Presidente Idriss Déby Itno, morto por insurgentes, anunciou o Eliseu.


O Presidente francês, Emmanuel Macron, e os seus homólogos do Níger, Burkina Faso, Mali e da Mauritânia foram hoje recebidos em Ndjamena pelo general Mahamat Idriss Déby, antes do início das cerimónias fúnebres do antigo chefe de Estado chadiano, a quem manifestaram a sua "unidade de pontos de vista", indicou à agência France Presse uma fonte não identificada da presidência francesa.

"O G5 Sahel está mobilizado no apoio ao Chade e manifestou o seu apoio conjunto ao processo de transição civil-militar para a estabilidade da região", acrescentou a mesma fonte.

O Chade está a enterrar hoje Idriss Déby Itno, que liderou o país com mão de ferro durante 30 anos, numa cerimónia iniciada ao início da manhã, que contou com a presença do chefe de estado francês, o único líder ocidental presente, e dos seus homólogos do G5 Sahel, assim como com o presidente do Conselho Soberano do Sudão, general Abdel Fattah al-Burhan e o chefe de Estado sul-africano, Félix Tshisekedi, presidente em exercício da União Africana (UA), entre uma dúzia de chefes de Estado e de governo.

Idriss Déby morreu na segunda-feira, de acordo com Ndjamena, com 68 anos de idade, em resultado de ferimentos sofridos na frente de batalha, no norte do Chade, contra insurgentes do movimento FACT - Front for Alternatives and Concord in Tchad.

O filho do presidente morto, Mahamat Idriss Déby, um tenente-general de 37 anos, até então comandante da Guarda Republicana, uma temível "guarda pretoriana" do regime, é o novo homem forte no Chade, e está rodeado pelos generais mais leais ao seu pai.

Mahamat Idriss Déby foi investido de plenos poderes, dissolveu o Parlamento e o governo anterior, suspendeu a constituição, anunciando uma "Carta de Transição", e formou um "Conselho de Transição" com 15 generais, prometendo "novas instituições" após eleições "livres e democráticas" dentro de 18 meses.

Para muitos opositores do regime, regularmente vítimas de intimidação e violência, esta tomada de poder não é mais do que um "golpe de Estado institucional".

Pouco antes da cerimónia, Macron e os outros quatro chefes de Estado do G5 Sahel, que formaram uma força militar apoiada por Paris para combater os jihadistas na região, liderada pelo Chade, deram testemunho ao jovem Déby numa audiência privada da "unidade de objectivos" e do "apoio conjunto ao processo de transição civil-militar para a estabilidade da região".

A cerimónia fúnebre decorreu na Place de la Nation, no coração de Ndjamena, onde o caixão coberto com a bandeira chadiana chegou numa pick-up rodeada de motociclistas.

Vinte e um tiros de canhão foram disparados e foram prestadas honras militares ao homem que foi elevado à patente de marechal do Chade no passado dia 11 de agosto e reeleito para um sexto mandato no passado dia 11.

A presença de Macron no Chade representa um sinal claro de que a França, que salvou militarmente, pelo menos, duas vezes o regime do falecido Idriss Déby, ameaçado pelos rebeldes em 2008 e 2019, mantém o apoio ao seu sucessor.

Paris estabeleceu o quartel-general da Barkhane, a sua força anti-jihadista no Sahel, no Chade, o seu aliado mais forte contra os extremistas islâmicos na região.

Desde que chegou ao poder pela força das armas, em 1990, com a ajuda de Paris, Idriss Déby contou sempre com o apoio da antiga potência colonial.

Depois da morte de Idriss Déby, a França já reiterou em diversas ocasiões a sua preocupação com "a estabilidade e integridade territorial do Chade".

"Irá o Conselho Militar de Transição assegurar a estabilidade, a integridade do Chade?", interrogou Jean-Yves Le Drian, ministro francês dos Negócios Estrangeiros, na passada quinta-feira, questionando ainda a capacidade da nova estrutura dirigente do país "implementar um processo democrático", respeitando ao mesmo tempo os seus compromissos militares na região.

Josep Borell, Alto Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança, fez uma observação semelhante: "Temos de ajudar o Chade. Temos de ultrapassar as considerações políticas", disse o chefe de diplomacia europeia na quinta-feira, durante uma visita à Mauritânia, antes de assistir se deslocar também a Ndjamena para assistir ao funeral de Idriss Déby.

Depois de discursos e de uma oração na Grande Mesquita de Ndjamena, os restos mortais de Idriss Déby foram transportados de avião para uma localidade a mais de mil quilómetros, Amdjarass, uma pequena aldeia não muito longe da sua cidade natal de Berdoba, capital da província de Ennedi East (nordeste), junto à fronteira sudanesa, onde será enterrado ao lado do seu pai.

A chegada de chefes de Estado a Ndjamena representa um considerável desafio de segurança para o novo regime, que ainda enfrenta uma rebelião, com retaguarda na Líbia, que prometeu marchar sobre a capital chadiana e rejeita "categoricamente" a transição militar.

A ameaça pode vir ainda de dentro do regime. A tomada do poder pelo jovem Mahamat Idriss Déby pode revelar-se frágil num contexto de clivagens importantes dentro do clã do chefe de Estado falecido.