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"O que se passa nos mercados de energia neste momento é uma combinação de fatores que não deve ser interpretada como o novo normal", diz o CEO do Grupo Axpo, Christoph Brand.


A escalada de preços por toda a Europa nos mercados grossistas de eletricidade “não é o novo normal”, avisam dois dos gestores de topo do Grupo Axpo: o CEO da empresa estatal suíça, Christoph Brand, e Domenico De Luca, Head of Trading & Sales.

“O que se passa nos mercados neste momento é uma combinação de fatores que não deve ser interpretada como o novo normal: temos tido pouco vento nas últimas semanas e meses, o que obrigou as centrais a gás e a carvão a produzir mais, a emitir mais gases poluentes e a pagar mais pelas licenças de emissão de CO2. Os preços do gás também estão extremamente altos devido a questões políticas europeias e mundiais“, começou por explicar o CEO num encontro com jornalistas de Portugal, Espanha e Itália em Baden, na sede da empresa.

Ambos confirmam que este cenário de escalada de preços, com os valores por MWh a baterem sucessivos máximos históricos, está já a levar as empresas de alguns países (como Espanha, por exemplo) a aumentar os pedidos para celebrar contratos de compra e venda de energia a longo prazo (PPA), por 10 a 15 anos

“Os grandes consumidores de energia estão assustados com os preços altos e preferem comprar a longo prazo. Com esta extrema volatilidade, toda a gente está demasiado assustada e a ponderar as suas decisões de investimento. Até para o trading, a volatilidade é demasiada neste momento. Os clientes estão a demorar a tomar as suas decisões, porque querem primeiro estabilidade”, disse por seu lado De Luca.

Neste momento a Axpo está a seguir os preços do mercado e a assinar PPA a um valor médio de 150 euros por MWh para a eletricidade vendida em 2021, descendo depois este valor para os 100 euros em 2022 e para os 60 euros em 2023. Eventualmente, voltará a rondar os 30€/MWh. “É o que nos diz o mercado e é a melhor referência que temos. Estamos a assinar PPA a estes preços neste momento, mas é difícil ter ainda uma visão de longo prazo”, diz o responsável pelo trading e vendas.

No entanto, questionado sobre é possível esperar uma estabilidade de preços já na primavera de 2022, De Luca garante que “será ainda demasiado cedo”. Mas deixa a ressalva: “se as temperaturas no inverno forem amenas e o consumo de gás natural não disparar, os preços podem relaxar mais cedo do que se pensava. Tudo vai depender da meteorologia”.

No pior dos cenários, e se os meses mais frios trouxerem de facto temperaturas muito baixas, “há o risco de sérios problemas”, com os governos europeus forçados a intervir para travar consumo de gás de famílias e empresas.

Domenico de Luca sublinha que as “reservas de gás na Europa estão muito baixas, e daí os preços elevados: deviam estar a 90% para o inverno, mas estão a 70%. É uma percentagem demasiado baixa. Se houver mais cortes no abastecimento, os preços do gás subirão ainda mais, para competir com a China“.

Neste momento, o gigante asiático enfrenta uma procura muito forte de gás para responder à retoma económica pós-pandemia e está a comprá-lo “a qualquer preço”.

Em risco, a curto prazo, estão os países europeus que mais consomem gás, como a Alemanha, Itália, Reino Unido, Espanha e França, esta última menos, por causa do nuclear.

Na visão dos dois responsáveis, a única forma de travar este cenário é investir mais em fontes de energia limpas. “Há muito dinheiro no mercado e toda a gente quer investir para ter capacidade renovável. Não teremos problemas com isso desde que os políticos e os governos não tomem decisões que desencorajem o investimento nas renováveis, que foi o que aconteceu em Espanha”, diz Brand, avisando que “com as novas medidas de choque que provocaram o pânico, muitos investidores quiseram desistir dos PPA que assinaram”.

Na visão de De Luca, isto é exatamente o contrário do que deve acontecer, porque o objetivo é que os investidores se comprometam com os projetos renováveis a longo prazo.

“Os políticos têm de pensar duas vezes antes de enviarem estes sinais para o mercado. É necessário ajudar as famílias, claro, porque as tarifas de luz e gás estão a ultrapassar todas as barreiras (em Espanha e Itália, os preços já mais do que duplicaram). Mas as medidas a tomar devem limitar os danos no mercado, que até tem vindo a funcionar bem até agora”, garante.

Intervir para corrigir a forma de funcionar do mercado é, na sua visão, “uma péssima ideia. “Ao intervir estamos a criar distorções e custos para a economia. É uma expropriação dos lucros das empresas, que fizeram investimentos a 20 anos. Porque é que o Governo não interveio também quando os preços da eletricidade estavam demasiado baixos? Por causa disto espero agora preços ainda mais elevados, com as empresas em Espanha que produzem energia hidroelétrica a restringirem a água que usam”, defende o CEO.

O responsável pelo trading e vendas da Axpo diz que as medidas em Espanha “foram muito invasivas e assustaram os investidores em projetos renováveis, o que pode, em última análise, mudar a formação de preços no mercado”. E teme que as medidas de Madrid possam “contagiar-se a outros países europeus. As más ideias costumam ser copiadas”, defende. Ainda assim, Portugal, Itália, e França já deram sinais de que não vão fazer “copy paste” das medidas de Madrid.

Se este tipo de intervenção do Governo tivesse sido na Suíça, por exemplo, os gestores da Axpo garantem que teriam “perdido muito dinheiro”. Para já, estes preços altos da eletricidade não afetam a empresa, “mas também, não beneficiamos deles. Vamos ter um bom ano não porque os preços estão altos, mas porque temos um bom desenvolvimento da nossa estratégia, em termos de PPA, frisa De Luca.

Sobre o mercado de carbono, diz que “é estúpido e muito controlado. Não tem um preço alvo, mas os governos sabem que os preços têm de chegar a um certo nível para permitir a descarbonização. As licenças de emissão de CO2 estão nos 60 euros por tonelada, mas não é suficiente. Deviam estar a 80 ou 90 euros”. Ou até mais caro, acrescenta Brand: “Se queremos descarbonizar a economia, o preço tem de ser 200 euros por tonelada, mas essa é uma decisão política difícil”.

O CEO garante que não viram até agora especulação nos preços do carbono. “Não é por causa do preço do carbono que os preços da eletricidade estão altos, mas sim por causa os preços do gás”, refere Brand, rematando que a forma mais fácil de resolver o problema e acabar com os subsídios é criar um “imposto global de carbono”.