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Numa entrevista ao ECO e TVI24, o presidente do BCP, Miguel Maya, apelou ao prolongamento das moratórias no crédito. Mas avisa que, para tal, terá de existir um "enquadramento regulatório" europeu.


O presidente do BCP fica “estarrecido” com a ideia de que o fim das moratórias é uma “bomba-relógio” para a economia. Numa entrevista ao ECO e TVI24, Miguel Maya disse que “só podemos retirar os apoios à economia quando a economia voltar a alguma normalidade”. “Porque é que estamos preocupados em sair do processo da moratória quando devíamos estar todos focados em resolver o problema da pandemia?”, questionou.

Está previsto que as moratórias públicas no crédito terminem em setembro, enquanto as moratórias privadas da banca devem terminar este mês. Sobre as privadas, o líder do BCP mostrou “convicção” de que “vão desaparecer”, porque “seguramente a APB só vai mexer no tema das moratórias se houver um enquadramento regulamentar a nível europeu”.

Já sobre as públicas, Miguel Maya afirmou: “Defendo muito as moratórias enquanto a pandemia não estiver resolvida.” Mas, aqui, disse ser essencial enquadramento europeu: “As moratórias têm de ter enquadramento regulatório ao nível do espaço em que os bancos hoje trabalham, que não é o espaço doméstico, mas o europeu.” E explicou que, ainda que os bancos, como o BCP, procurem soluções em conjunto com os clientes privados, numa lógica caso a caso, se não houver esse enquadramento, estes clientes vão ficar com um “estigma” e terão dificuldades em obter financiamento durante “muitos anos”.

Se assim for, “vamos importar um problema para o sistema financeiro”, alertou. “Defendo as moratórias enquanto tiverem enquadramento europeu”, acrescentou, salientando que a Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia deveria influenciar nesse sentido.

“Se a economia estiver a funcionar com confinamentos [em setembro] como está hoje, é óbvio que [o fim das moratórias] será um problema”, rematou, reforçando, uma vez mais, que a renovação do prazo deve ter “enquadramento regulamentar europeu”. “Caso contrário, é um desastre para a economia portuguesa”, advertiu.

O presidente do BCP disse estar “positivo” em relação à possibilidade de a pandemia começar a “dissipar” no final do primeiro semestre. No entanto, sublinhou que “não fica tudo resolvido”. Tem de haver, indicou, um “balanceamento” entre as moratórias e o apoio do Estado.

Ainda assim, apesar das adversidades, Miguel Maya assegurou que o BCP está sólido. “Não tenho nenhuma perspetiva de que o BCP precise de capital. Nenhuma perspetiva… a não ser que a economia desabe, se perdermos o rating da República… cenários de inferno na Terra”, disse o gestor.

Assumindo, assim, um maior otimismo quanto à recuperação da economia portuguesa no segundo semestre, o presidente executivo do BCP anuiu quando questionado se a renovação das moratórias, num cenário de retoma, deverá abranger apenas os setores mais afetados pela crise da Covid-19.

“Muitas empresas estão a trabalhar acima de 2019. Temos que tratar de forma segmentada. Ir acabando com os segmentos que já não precisam de moratória, e, para os setores afetados, ir tendo a responsabilidade de encontrar soluções”, explicou.

Na entrevista ao ECO e à TVI24, o presidente do BCP voltou a criticar o mecanismo de capital contingente que está na base da capitalização do Novo Banco com dinheiro do Fundo de Resolução, pago pelo setor bancário.

Dizendo reconhecer que quando se deu a venda do Novo Banco ao Lone Star, “já não havia muitas alternativas”, o gestor afirmou: “Não é razoável que o BCP e os seus trabalhadores, no espaço em que estou a captar clientes, que é o espaço europeu, só estar a trabalhar três trimestres [por ano], porque num deles estou a pagar o mecanismo de capital contingente”, ressalvou.

Terminando a reestruturação do Novo Banco, Miguel Maya adverte que não é o fim. A dívida do Fundo de Resolução “está lá para pagar”. “Essa dívida fica um conjunto de contribuintes a pagar”, disse, referindo-se aos principais bancos portugueses. Dito isto, reiterou: “O BCP, contribuinte português, que gera emprego em Portugal, não teve nenhuma responsabilidade naquilo que se passou.”

Instado, por fim, a comentar o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) — e dizendo também não gostar do termo “bazuca” europeia –, Miguel Maya elogiou a escolha do Governo do gestor António Costa e Silva para desenhar o primeiro esboço do plano, assim como o documento ter ido a consulta pública. Aproveito para deixar um alerta: “Não podemos pensar em como gastar o dinheiro. Temos de pensar em como o investir.”